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Menopausa, Queda de Estrogênio e Resistência à Leptina aumentando gordura corporal

23 de jul.
8 min de leitura


A transição menopáusica é um dos pontos de inflexão metabólica mais marcantes na fisiologia feminina. Não se trata apenas do fim da função reprodutiva: a queda progressiva do estrogênio reorganiza a forma como o corpo distribui gordura, como o cérebro interpreta os sinais de saciedade e como os tecidos respondem à insulina. Este artigo detalha essa via fisiológica passo a passo — da perda de estrogênio à resistência hipotalâmica à leptina e ao acúmulo de gordura visceral — e revisa o que a literatura atual diz sobre exercício, alimentação e reposição hormonal como estratégias de manejo, tema que vem recebendo atenção crescente nas revisões farmacológicas sobre obesidade em mulheres na pós-menopausa.


A via fisiológica: do estrogênio ao acúmulo de gordura visceral


O papel do estrogênio no padrão pré-menopausa

Durante os anos reprodutivos, o estrogênio (principalmente o estradiol) favorece o armazenamento de gordura no padrão ginecoide — quadris, coxas e região glútea — na forma de tecido adiposo subcutâneo, metabolicamente mais benigno, com lipólise regulada e menor infiltração inflamatória. O estradiol atua diretamente sobre o hipotálamo, via receptor de estrogênio alfa (ERα), potencializando a sensibilidade dos neurônios POMC/CART à leptina e mantendo um controle eficiente do apetite (revisão "Estrogen and Metabolism: Navigating Hormonal Transitions", 2025).


Menopausa e aumento da gordura corporal
Resistencia a leptina e insulina e decréscimo de estradiol na menopausa.

O que muda na perimenopausa e na pós-menopausa


Com a queda progressiva do estradiol, essa sinalização se deteriora em múltiplas frentes simultâneas:

●      Redução da sensibilidade hipotalâmica à leptina: a perda de sinalização via ERα nos neurônios POMC/CART e nos neurônios do núcleo hipotalâmico ventromedial (SF1) reduz a resposta anorexígena à leptina circulante — os mesmos neurônios e vias descritos em nosso artigo anterior sobre resistência central à leptina, mas agora com um gatilho hormonal específico e adicional: a queda de estrogênio (revisão descritiva, IMR Press, 2025).

●      Redistribuição de gordura para o compartimento visceral: na ausência do efeito protetor do estradiol, o tecido adiposo passa a se acumular preferencialmente na região abdominal profunda (visceral) em vez do padrão subcutâneo/glúteo-femoral prévio — mudança atribuída, em parte, a uma razão testosterona/estradiol relativamente mais alta após a menopausa, já que a produção ovariana de estrogênio cai proporcionalmente mais do que a de andrógenos (revisão Exploration of Endocrine and Metabolic Diseases, 2025).

●      Disfunção do tecido adiposo subcutâneo: estudos com biópsias pareadas de tecido subcutâneo e visceral mostram que, após a menopausa, o tecido adiposo subcutâneo desenvolve hipertrofia de adipócitos, maior infiltração inflamatória, hipóxia e fibrose — o que compromete sua capacidade normal de "absorver" o excesso calórico, empurrando o excedente lipídico para depósitos menos seguros, como o visceral e outros sítios ectópicos (estudo transversal, 2021).

●      Menor capacidade oxidativa de ácidos graxos: genes envolvidos na beta-oxidação são regulados positivamente pelo estradiol; com sua queda, a capacidade de oxidar ácidos graxos livres diminui, enquanto genes de lipogênese permanecem ou se tornam mais ativos — um duplo desequilíbrio que favorece tanto o acúmulo quanto a resistência à insulina local (revisão sobre metabolismo energético na pós-menopausa, 2021).

●      Perfil de adipocinas menos favorável: mulheres na pós-menopausa apresentam redução da adiponectina (protetora) e elevação de citocinas pró-inflamatórias como TNF-α e IL-6 no tecido adiposo, reforçando a inflamação crônica de baixo grau já discutida em artigos anteriores desta série, mas agora com a queda hormonal como gatilho adicional (Frontiers in Endocrinology, 2025).


Fechando o ciclo: por que isso se autoperpetua

O resultado é um ciclo que se realimenta: menos estrogênio reduz a sensibilidade hipotalâmica à leptina, o que aumenta a ingestão calórica relativa; a gordura visceral acumulada é mais inflamatória e produz mais leptina (que já não é bem "escutada" pelo hipotálamo) e menos adiponectina; e a resistência periférica à insulina que se instala progressivamente agrava ainda mais o armazenamento de gordura visceral — o mesmo ciclo autoperpetuante de resistência seletiva descrito em nosso artigo sobre as múltiplas funções da insulina, agora com a menopausa como um segundo gatilho hormonal sobreposto ao primeiro.


O que a evidência diz sobre exercício

Treinamento de força

O treinamento resistido é a modalidade com maior consistência de evidência específica para mulheres na pós-menopausa, atuando por duas vias complementares: contrapõe a perda acelerada de massa muscular (sarcopenia relacionada à queda de estrogênio, que reduz o gasto energético basal) e melhora a sensibilidade à insulina, independentemente do estrogênio circulante. Um estudo randomizado e duplo-cego mostrou que 12 semanas de treinamento de força associado à terapia estrogênica transdérmica produziram maior ganho de massa muscular do que o treinamento isolado — sugerindo que o estrogênio potencializa, mas não substitui, o estímulo do treinamento (Frontiers in Physiology, 2021).

Curiosamente, o treinamento de força também parece atuar sobre o próprio eixo hormonal: um ensaio clínico randomizado mostrou que 15 semanas de treinamento resistido, três vezes por semana, reduziram os sintomas vasomotores (fogachos) em 50% comparado a um grupo controle, um efeito associado a alterações no hormônio luteinizante (LH), sugerindo uma via de comunicação entre exercício e regulação hormonal central que vai além do efeito muscular local (PLOS One, 2022).


Exercício aeróbico

O exercício aeróbico contribui principalmente pela via do gasto energético, especialmente relevante porque a menopausa está associada a uma redução mensurável do gasto energético total, mesmo antes de qualquer mudança na dieta — um estudo longitudinal de 4 anos confirmou aumento de gordura total e abdominal atribuível tanto à queda de estrogênio quanto à redução do gasto energético concomitante (estudo longitudinal, 2008).


Combinação e recomendação prática

A recomendação com maior respaldo prático combina as duas modalidades: treinamento de força de 2 a 3 vezes por semana, em intensidade relevante, associado a atividade aeróbica regular — reconhecendo que o exercício isolado, embora benéfico, dificilmente reverte por completo a redistribuição de gordura visceral induzida pela queda hormonal sem o apoio de outras estratégias (revisão sobre tecido adiposo saudável após a menopausa, 2025).


O que a evidência diz sobre alimentação

Não existe uma dieta específica e exclusiva "da menopausa" com evidência de superioridade robusta, mas alguns princípios têm respaldo consistente nas revisões recentes:

●      Ingestão proteica elevada (1,2 a 1,6 g/kg/dia, distribuída em porções de 25 a 30 g por refeição): para contrapor a perda de massa muscular acelerada pela queda de estrogênio e sustentar a resposta ao treinamento de força.

●      Padrão alimentar de base mediterrânea: pelos mesmos mecanismos anti-inflamatórios discutidos em nosso artigo sobre resistência à insulina, com relevância adicional aqui porque a inflamação do tecido adiposo já está aumentada pela própria queda de estrogênio.

●      Controle do balanço energético: como o gasto energético basal cai na transição menopáusica, a mesma ingestão calórica que antes mantinha o peso estável passa a gerar excedente — um ajuste que precisa ser reconhecido e adaptado, e não apenas atribuído a "falta de esforço".

●      Atenção à qualidade do sono: a disrupção do sono, comum na perimenopausa, eleva o cortisol e o hormônio orexígeno grelina, compondo mais um fator que se soma à resistência à leptina já discutida — o que reforça, mais uma vez, que a via de saciedade está sendo atacada por múltiplos ângulos simultâneos, não um único mecanismo isolado.


Reposição hormonal: o que a evidência mostra e suas nuances

A terapia hormonal da menopausa (estrogênio isolado ou combinado a progestagênio) é hoje um dos temas de maior interesse em revisões farmacológicas sobre obesidade pós-menopausa, mas a evidência específica sobre gordura visceral e sensibilidade à insulina apresenta nuances importantes que vale reconhecer.


Efeitos sobre a distribuição de gordura

Um estudo de coorte (OsteoLaus) associou o uso de terapia hormonal da menopausa a menor adiposidade total e visceral em comparação a não usuárias, alinhado com o racional fisiológico de que restaurar o estrogênio deveria favorecer o padrão de distribuição de gordura mais protetor (Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2018).


Efeitos sobre a sensibilidade à insulina: um resultado que exige cautela

Por outro lado, um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, com 76 mulheres acompanhadas por 2 anos, encontrou um resultado que merece ser relatado com honestidade: a combinação de estrogênios conjugados (0,625 mg) com acetato de medroxiprogesterona (2,5 mg) diários reduziu a sensibilidade à insulina em 17% aos 6 meses, efeito que persistiu até os 2 anos de uso — e que só se normalizou um ano após a suspensão do tratamento. Nesse mesmo estudo, a gordura intra-abdominal e subcutânea não diferiu entre os grupos ao longo do tempo (Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2005).


Esse achado ilustra por que a terapia hormonal não deve ser vista como solução metabólica automática: o efeito parece depender fortemente da formulação específica (estrogênio isolado versus combinado com determinados progestagênios), da via de administração (oral versus transdérmica) e do momento de início em relação ao início da menopausa — variáveis que a literatura ainda está refinando, e que reforçam a necessidade de decisão individualizada com acompanhamento médico especializado, e não como estratégia isolada de emagrecimento.


Agonistas de GLP-1 como abordagem farmacológica emergente e específica

Análises mais recentes de subgrupos pós-menopausa em estudos com agonistas de GLP-1/GIP mostram redução preferencial de gordura visceral em relação à subcutânea — justamente o compartimento mais afetado pela queda de estrogênio —, com uma análise pós-menopausa do programa SURMOUNT relatando redução média de circunferência da cintura de cerca de 20 cm versus 4 cm no grupo placebo, reforçando por que esse grupo vem recebendo atenção crescente nas revisões farmacológicas de obesidade, conforme já discutido em nosso artigo sobre resistência central à leptina e à insulina.



A queda de estrogênio na transição menopáusica desencadeia uma via fisiológica bem delineada: menor sensibilidade hipotalâmica à leptina via ERα, redistribuição de gordura do padrão subcutâneo para o visceral, disfunção do tecido adiposo subcutâneo, menor capacidade oxidativa de ácidos graxos e um perfil de adipocinas mais inflamatório — todos convergindo para o mesmo ciclo de resistência seletiva já discutido nesta série de artigos sobre insulina e leptina, agora com um gatilho hormonal adicional e específico dessa fase da vida. O exercício, especialmente o treinamento de força combinado a atividade aeróbica, e um padrão alimentar rico em proteína e de base mediterrânea, têm respaldo consistente como primeira linha de manejo. Já a reposição hormonal mostra potencial benefício sobre a distribuição de gordura em alguns estudos, mas com resultados nuançados sobre sensibilidade à insulina que exigem individualização e acompanhamento médico especializado — não devendo ser interpretada como solução isolada ou automática, mas como uma entre várias ferramentas dentro de uma estratégia mais ampla de estilo de vida.



Referências

Estrogen and Metabolism: Navigating Hormonal Transitions from Perimenopause to Postmenopause. 2025.

Healthy Adipose Tissue After Menopause: Contribution of Balanced Diet and Physical Exercise. Exploration of Endocrine and Metabolic Diseases, v. 2, 101424, 2025.

Metabolic Impact of Endogenously Produced Estrogens by Adipose Tissue in Females and Males Across the Lifespan. Frontiers in Endocrinology, v. 16, 1682231, 2025.

The Accumulation of Visceral Fat in Postmenopausal Women: The Combined Impact of Prenatal Genetics, Epigenetics, and Fat Depot Heterogeneity — A Descriptive Review. IMR Press, 2025.

Changes in Abdominal Subcutaneous Adipose Tissue Phenotype Following Menopause Is Associated with Increased Visceral Fat Mass. 2021.

Energy Metabolism Changes and Dysregulated Lipid Metabolism in Postmenopausal Women. 2021.

Increased Visceral Fat and Decreased Energy Expenditure During the Menopausal Transition. 2008.

DAM, T. V. et al. Transdermal Estrogen Therapy Improves Gains in Skeletal Muscle Mass After 12 Weeks of Resistance Training in Early Postmenopausal Women. Frontiers in Physiology, 2021.

Resistance Training Reduced Luteinising Hormone Levels in Postmenopausal Women in a Substudy of a Randomised Controlled Clinical Trial. PLOS One, 2022.

A 2-Year Follow-Up to a Randomized Controlled Trial on Resistance Training in Postmenopausal Women: Vasomotor Symptoms, Quality of Life and Cardiovascular Risk Markers. 2024.

The Effect of Hormone Replacement Therapy on Body Composition, Body Fat Distribution, and Insulin Sensitivity in Menopausal Women: A Randomized, Double-Blind, Placebo-Controlled Trial. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 2005.

Menopausal Hormone Therapy Is Associated with Reduced Total and Visceral Adiposity: The OsteoLaus Cohort. Journal of Clinical Endocrinology & Metab

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