A Descomoditização da Nutrição: Estratégias para Diferenciação e Entrega de Valor em um Mercado Saturado
- henriquedagger
- 2 de dez. de 2025
- 16 min de leitura
A "commoditização", fenômeno em que produtos ou serviços perdem sua diferenciação e passam a ser comparados primariamente pelo preço, avança sobre os serviços de saúde com uma força disruptiva. Na prática da nutrição, essa tendência se manifesta quando o conhecimento técnico do profissional é reduzido a um mero produto: um plano alimentar, uma lista de compras, uma contagem de calorias. A tese central deste artigo é que, para transcender este modelo redutor, o profissional de nutrição deve empreender uma metamorfose estratégica. É preciso evoluir de um provedor de informações para um parceiro essencial na jornada de saúde do cliente, integrando com maestria os princípios da ciência comportamental, a personalização baseada em dados e uma comunicação de alta empatia.
Este artigo propõe investigar a anatomia deste desafio, delineando as questões centrais que definem o cenário atual. Primeiramente, analisaremos os problemas inerentes ao modelo comoditizado, que limitam a diferenciação e corroem a sustentabilidade da carreira. Em segundo lugar, apresentaremos estratégias concretas para a entrega de resultados superiores, que vão muito além da prescrição dietética. Por fim, realizaremos uma análise aprofundada do que os clientes realmente buscam quando procuram ajuda, para além da superfície de um pedido por perda de peso.

A importância deste tema é crucial. Em um mercado saturado de informações gratuitas e soluções rápidas, a sobrevivência e a relevância da profissão de nutricionista dependem dessa transformação. A capacidade de agregar valor de forma única e insubstituível é o que distinguirá o profissional de elite do provedor de mercadorias. A seguir, iniciaremos uma análise aprofundada do cenário contemporâneo e dos perigos iminentes da comoditização que definem a Parte I deste trabalho.
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PARTE I: A Anatomia da Comoditização na Nutrição
A Armadilha do Produto: Quando a Nutrição se Torna uma Mercadoria
Compreender a natureza da "armadilha da commodity" é um passo estratégico fundamental. Ao identificar suas características, os profissionais de nutrição podem conscientemente evitar replicá-las em sua prática, construindo um modelo de serviço imune à banalização. Essa armadilha se arma quando o foco do serviço se desloca da solução para o artefato.
Um serviço de nutrição comoditizado se define pela sua abordagem transacional. Conforme Stephan Schiffman em "A Bíblia do Vendedor", existe uma diferença crucial entre vender um "produto" e vender "ajuda". O serviço comoditizado vende o produto: planos de dieta genéricos, listas de alimentos permitidos e proibidos, aplicativos de contagem de calorias. O serviço de valor, em contraste, vende ajuda: uma solução personalizada que considera o contexto de vida do cliente, seus hábitos e suas barreiras emocionais, acompanhando-o na implementação dessa solução.
As características centrais deste modelo são a competição focada primariamente em preço e a subsequente falta de percepção de valor agregado pelo cliente. Como analisa Sandro Magaldi em "VENDAS 3.0", quando o cliente não tem clareza sobre os benefícios reais e transformadores de uma oferta, sua atenção se volta para a única característica que ele consegue comparar objetivamente: o preço. O nutricionista entra, então, em uma guerra de preços com influenciadores digitais, aplicativos e outros profissionais que oferecem "produtos" similares, uma batalha insustentável a longo prazo.
Os perigos deste modelo para o profissional são severos. O principal deles é a desvalorização do conhecimento técnico e da experiência clínica, que se tornam invisíveis por trás do "produto" genérico. A consequência direta é a dificuldade em construir uma carreira sustentável, marcada por baixa remuneração, alta rotatividade de clientes e a constante necessidade de justificar seu valor. Compreendida a armadilha, o próximo passo é analisar as forças de mercado que, de forma implacável, empurram a profissão nessa direção perigosa.
Forças de Mercado e a Banalização do Conhecimento
As dinâmicas do mercado contemporâneo, impulsionadas pela velocidade e alcance do ambiente digital, aceleram drasticamente o processo de comoditização. O conhecimento nutricional, antes um domínio de especialistas, tornou-se aparentemente onipresente, acessível e, na percepção de muitos, gratuito, o que contribui para sua banalização.
A cultura digital e o fenômeno dos influenciadores têm um impacto profundo nesse cenário. A máxima citada por Schopenhauer — "ἁ μεν πολλοις δοκει ταυτα γε εινειφαμεν" (o que parece muito certo, dizemos que está certo) — encapsula perfeitamente a lógica das mídias sociais. A popularidade de uma dieta ou de uma "dica" nutricional, medida em curtidas e compartilhamentos, cria uma ilusão de consenso e eficácia, independentemente de sua validade científica. Isso banaliza o papel do especialista, que é forçado a competir com narrativas simplificadas e promessas sedutoras.
Essa dinâmica é reforçada pela mentalidade do "quick fix" (solução rápida). A cultura moderna valoriza resultados imediatos com o mínimo de esforço. Essa demanda por resultados imediatos, que ignora a mecânica do loop deixa-rotina-recompensa detalhada em "O Poder do Hábito", favorece abordagens superficiais e dietas da moda em detrimento de mudanças de comportamento sustentáveis, que exigem tempo, consistência e orientação qualificada. O serviço comoditizado prospera nesse ambiente, oferecendo exatamente o que o mercado parece querer: uma solução fácil e instantânea.
Nesse contexto, muitas abordagens se assemelham à "Dialética Erística" descrita por Schopenhauer. O objetivo não é buscar a "verdade objetiva" — o melhor resultado sustentável para o cliente —, mas sim "ter razão", ou seja, vender uma ideia da moda e vencer a disputa pela atenção do consumidor. Para isso, utilizam-se estratégias de persuasão que podem ser desonestas, focadas em convencer a qualquer custo, em vez de educar e transformar. Essas forças de mercado, quando combinadas, criam um ambiente tóxico que afeta diretamente a relação entre o profissional e o cliente, bem como os resultados que podem ser alcançados.
As Consequências da Saturação: Erosão da Confiança e Resultados Medíocres
O resultado final da comoditização é um ciclo vicioso de desconfiança, baixa adesão e resultados insatisfatórios que prejudica tanto clientes quanto profissionais. Essa saturação de ofertas genéricas e promessas vazias não apenas dificulta a diferenciação, mas também degrada a percepção de valor da profissão como um todo.
A confiança do cliente é a primeira vítima. A abordagem agressiva e genérica, similar ao "marketing de interrupção", gera resistência e ceticismo. O consumidor moderno, como aponta "A bíblia do marketing digital", tem o poder da informação na ponta dos dedos. Ele pesquisa, compara e desconfia de promessas milagrosas. Quando exposto a uma avalanche de mensagens contraditórias e soluções padronizadas, sua tendência é recuar, tornando-se avesso a qualquer tipo de orientação.
O problema central, no entanto, é a baixa adesão e os resultados insustentáveis. Planos genéricos falham porque ignoram os três pilares da mudança de comportamento: o contexto individual, os hábitos arraigados e a psicologia do cliente. Como explorado em obras como "O Poder do Hábito" e "A Lógica da Emoção", as escolhas alimentares são profundamente influenciadas por rotinas automáticas e estados emocionais. Um serviço que entrega apenas um plano, sem fornecer as ferramentas para navegar nesses territórios complexos, está fadado ao fracasso e à frustração do cliente.
Característica do Modelo Comoditizado | Impacto Negativo (Profissional/Cliente) |
Foco em "Produto" (Plano Genérico) | Cliente: Baixa adesão por ignorar o contexto individual. Profissional: Desvalorização do conhecimento aplicado. |
Competição baseada em Preço | Cliente: Percepção de baixo valor e busca por soluções ainda mais baratas/gratuitas. Profissional: Remuneração insustentável. |
Comunicação de Massa e Impessoal | Cliente: Erosão da confiança e ceticismo. Profissional: Dificuldade em construir relacionamento e fidelizar. |
Ignora a Ciência Comportamental | Cliente: Resultados medíocres e insustentáveis, efeito sanfona. Profissional: Frustração e percepção de ineficácia. |
Para quebrar esse ciclo pernicioso, é imperativo ir além da superfície. É preciso compreender o que os clientes buscam em um nível mais profundo, para além do pedido explícito por um "plano para emagrecer". Essa investigação sobre as necessidades não declaradas é o tema central da próxima parte deste artigo.
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PARTE II: A Busca Não Declarada do Cliente: Para Além do Plano Alimentar
O Que as Pessoas Realmente Buscam: Segurança, Parceria e Transformação
A premissa fundamental para a descomoditização do serviço de nutrição é a seguinte: o cliente pode pedir um plano alimentar, mas o que ele realmente deseja — e pelo que está disposto a pagar um valor premium — é um conjunto de soluções emocionais e psicológicas para seus desafios mais profundos. O plano é apenas o veículo; a transformação é o destino.
Primeiramente, os clientes buscam alívio da angústia. Freud, em "O Mal Estar na Civilização", já apontava para o fardo imposto pela vida em sociedade. No contexto contemporâneo, a "super exigência" por um corpo "perfeito" e um estilo de vida idealizado, como descrito em "A Lógica da Emoção", gera uma imensa ansiedade. As pessoas buscam um profissional que não apenas prescreva o que comer, mas que as ajude a navegar na pressão cultural, na culpa e na frustração que permeiam sua relação com a comida.
Para que essa navegação seja possível, é crucial a criação de um espaço seguro. Inspirado no conceito de Mario Corso em "A Psicanálise na Terra do Nunca", o serviço de alto valor deve ser um "lugar onde é possível falir". O cliente precisa sentir que pode ser vulnerável, admitir suas dificuldades, seus deslizes e suas "falhas" sem ser julgado. Esse ambiente de confiança radical é a antítese do modelo prescritivo e autoritário. É nesse espaço que a verdadeira mudança pode começar a florescer, pois o medo da condenação é removido.
Finalmente, os clientes anseiam por parceria e co-criação. Os princípios de Dale Carnegie sobre se interessar genuinamente pelos outros e os de Michael Wheeler sobre se alinhar "contra o problema" são diretamente aplicáveis. Um profissional diferenciado não se posiciona como um detentor do saber que dita regras, mas como um aliado estratégico. Ele ouve atentamente, se interessa pela vida do cliente para além da alimentação e constrói a solução com ele, não para ele. Essa postura transforma a consulta de uma transação para um encontro colaborativo, um ativo que jamais poderá ser comoditizado. Para construir essa parceria de forma eficaz, é indispensável compreender os mecanismos psicológicos que governam o comportamento alimentar.
A Psicologia da Mudança: Hábitos, Emoções e Autossabotagem
Qualquer estratégia nutricional que ignore a complexa e poderosa interação entre emoção, hábito e cognição está, invariavelmente, fadada ao fracasso. A verdadeira diferenciação profissional não reside em conhecer mais sobre bioquímica, mas em dominar o campo da psicologia da mudança. É nesse domínio que a informação se transforma em ação sustentável.
O ponto de partida é o poder dos hábitos. Charles Duhigg, em "O Poder do Hábito", desvenda o mecanismo fundamental que governa grande parte de nosso comportamento: o loop deixa-rotina-recompensa. Um serviço de nutrição de elite não tenta simplesmente eliminar maus hábitos, mas ensina o cliente a identificar as "deixas" (gatilhos) e as "recompensas" (anseios) para, então, substituir a "rotina" prejudicial por uma mais saudável. O sucesso é construído através de "pequenas vitórias", mudanças incrementais que se solidificam com o tempo, em vez de transformações radicais e insustentáveis.
Contudo, os hábitos são frequentemente governados por uma força ainda mais poderosa: a emoção. Como detalhado em "A Lógica da Emoção", a emoção é a comandante do fluxo de energia psíquica. Sentimentos de medo, ansiedade, frustração ou, inversamente, de prazer e conforto, direcionam as escolhas alimentares de forma muito mais eficaz do que qualquer raciocínio lógico. Ignorar o papel da comida como regulador emocional é ignorar a principal causa da autossabotagem. Um profissional de valor ajuda o cliente a desenvolver inteligência emocional aplicada à alimentação, criando estratégias para lidar com os sentimentos sem recorrer a comportamentos destrutivos.
A autossabotagem também é alimentada pela racionalização. Dan Ariely, em "A Mais Pura Verdade Sobre a Desonestidade", introduz o conceito de "margem de manobra", que explica como as pessoas racionalizam pequenos desvios para se beneficiarem sem se sentirem desonestas. No contexto alimentar, isso se traduz em justificativas como "eu mereço", "só hoje" ou "segunda-feira eu começo". Um profissional diferenciado atua para reduzir essa margem de manobra, não através da punição, mas promovendo a honestidade do cliente consigo mesmo e co-criando sistemas que tornem os desvios mais difíceis de racionalizar.
Três Pilares Psicológicos para o Sucesso do Cliente
Mapeamento de Hábitos: Consiste em aplicar o loop deixa-rotina-recompensa para entender os gatilhos e anseios por trás dos comportamentos alimentares automáticos do cliente, permitindo a substituição estratégica de rotinas prejudiciais.
Inteligência Emocional Aplicada à Alimentação: Envolve reconhecer que as emoções direcionam as escolhas e ensinar o cliente a identificar seus estados emocionais e desenvolver mecanismos saudáveis para lidar com eles, sem usar a comida como principal regulador.
Estratégias Antirracionalização: Foca em ajudar o cliente a tomar consciência de como ele justifica seus próprios desvios ("margem de manobra"), criando um ambiente de auto-honestidade e sistemas de apoio que minimizem a autossabotagem.
Com a compreensão profunda da anatomia da comoditização e da complexa psicologia do cliente, estamos agora equipados para construir o paradigma do profissional de nutrição descomoditizado.
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PARTE III: O Nutricionista Descomoditizado: Um Novo Paradigma de Atuação
A Metamorfose do Profissional: De Provedor a Parceiro Estratégico
A descomoditização começa com uma mudança fundamental de identidade profissional. Requer uma metamorfose: de um técnico que prescreve dietas para um consultor estratégico que desafia, ensina e co-cria soluções de vida. Não é uma mudança de o que se faz, mas de quem se é na relação com o cliente.
Essa nova identidade pode ser descrita como o "Nutricionista Desafiador". Adaptando o modelo "Challenger" de "A Venda Desafiadora", o profissional de elite não se limita a responder aos pedidos do cliente; ele o provoca. Ele ensina ao cliente algo novo e valioso sobre sua própria saúde, seus padrões de comportamento e seus desafios ocultos, reformulando a percepção do cliente sobre o problema e, consequentemente, sobre a solução necessária. Ele não vende um plano alimentar; ele vende uma nova perspectiva.
Essa postura exige uma mentalidade empreendedora. A jornada de Phil Knight em "A Marca da Vitória" ilustra que o profissional deve se ver como o fundador de sua própria marca pessoal, com uma missão clara, valores definidos e uma história autêntica que o diferencie no mercado. Ele não é apenas um nutricionista; ele é o CEO de um negócio focado em transformação humana, e cada interação com o cliente deve refletir a excelência e a visão dessa marca.
Finalmente, essa identidade é sustentada pela "presença". Amy Cuddy, em "O Poder da Presença", demonstra como a postura, a confiança e a autenticidade do profissional durante a consulta são cruciais para estabelecer credibilidade e calor humano. A presença é a manifestação física da expertise e da empatia. É a capacidade de estar totalmente focado no cliente, transmitindo segurança e interesse genuíno. Esses são componentes essencialmente humanos, qualidades que a tecnologia não pode replicar e que o mercado não pode comoditizar. Essa mudança de mentalidade é a base sobre a qual se constrói uma nova arquitetura de serviço.
A Arquitetura do Serviço de Alto Valor
Um serviço de alto valor não é um acidente; é uma construção deliberada. Ele é definido por sua estrutura e seus processos, que são projetados intencionalmente para entregar uma experiência transformadora, não apenas uma transação comercial. A arquitetura desse serviço repousa sobre pilares de investigação profunda, personalização radical e uma visão holística do ser humano.
O Imperativo Diagnóstico - A Arte de Investigar
A base de qualquer solução eficaz é um diagnóstico preciso, e isso requer maestria na arte de fazer perguntas. A metodologia SPIN Selling, detalhada em "Alcançando Excelência em Vendas", oferece um roteiro poderoso que pode ser adaptado para a consulta nutricional. As perguntas de Situação mapeiam o contexto atual do cliente. As de Problema revelam suas dificuldades e insatisfações. As de Implicação, cruciais para a diferenciação, exploram as consequências negativas desses problemas, fazendo o cliente sentir o peso e a urgência da mudança. Por fim, as de Necessidade de Solução guiam o cliente a verbalizar os benefícios da solução, tornando-o coautor do plano.
Essa metodologia, no entanto, só funciona se ancorada na escuta ativa. Como ensina Dale Carnegie, ser um "bom ouvinte" e "incentivar os outros a falar sobre eles mesmos" não é apenas uma técnica de rapport, mas a ferramenta diagnóstica mais poderosa. É ouvindo que se captam as nuances, as emoções subjacentes e as verdadeiras barreiras do cliente, informações que nunca surgiriam em um questionário padrão.
O Plano de Ação Personalizado - Da Complexidade à Clareza
Uma vez estabelecido o diagnóstico, o plano de ação deve traduzir a complexidade em clareza. Aqui, o princípio da "Próxima Ação" de David Allen ("A Arte de Fazer Acontecer") é fundamental. Objetivos grandiosos como "mudar o estilo de vida" são paralisantes. O profissional de alto valor quebra esses objetivos em passos pequenos, claros e imediatamente acionáveis, dando ao cliente a confiança de que ele pode começar agora.
Mas a clareza na ação só é eficaz quando a ação é verdadeiramente personalizada. Para isso, a análise de dados do cliente, como ilustrado no exemplo da rede Target em "O Poder do Hábito", que usa padrões de compra para prever as necessidades dos consumidores, é instrutiva. De forma análoga, o nutricionista pode usar informações sobre a rotina de trabalho, os hábitos sociais, os horários e o ambiente familiar do cliente para criar um plano que se encaixe em sua vida como uma luva, em vez de exigir que ele mude toda a sua vida para se encaixar no plano.
A Abordagem Holística - Corpo, Mente e Ambiente
O serviço de alto valor reconhece que a nutrição não ocorre no vácuo. É preciso integrar o "mindset" como parte fundamental do tratamento. Conceitos de alta performance, como os apresentados nos "9-passos-para-viver-em-Alta-Performance", defendem a inclusão de estratégias de mentalidade, meditação e gratidão como ferramentas para reduzir o estresse e aumentar a resiliência, fatores que impactam diretamente as escolhas alimentares.
Além da mente, é crucial abordar o ambiente social. A famosa regra que diz que "somos a média das 5 pessoas com quem mais convivemos" aponta para uma verdade profunda. Um serviço premium não pode ignorar essa variável. Parte do trabalho do nutricionista estratégico é ajudar o cliente a navegar e gerenciar suas influências sociais, equipando-o com ferramentas para lidar com a pressão de amigos e familiares, transformando potenciais sabotadores em aliados. A melhor estrutura de serviço, no entanto, só ganha vida se for sustentada por uma comunicação excepcional e um relacionamento robusto.
A Linguagem da Parceria: Comunicação, Confiança e Empatia
A comunicação é o sistema circulatório do serviço de alto valor. É ela que nutre a confiança, transporta a empatia e, em última análise, determina o sucesso da parceria e a diferenciação do profissional. A qualidade da interação humana é o firewall definitivo contra a comoditização.
O pilar dessa interação são as técnicas de comunicação empática. Como explicado em "A Lógica da Emoção", a empatia é a capacidade de se conectar com o estado emocional do cliente, de compreender seu mundo interno para além das palavras. Não se trata de sentir pena, mas de validar seus sentimentos e demonstrar uma compreensão genuína de seus desafios. Essa conexão cria o espaço seguro onde a vulnerabilidade e a honestidade podem florescer.
Para fortalecer essa parceria, o profissional pode utilizar o princípio de "apelar para os mais nobres motivos", de Dale Carnegie. Em vez de focar apenas em métricas físicas como peso e medidas, a comunicação de valor enquadra a jornada nutricional em termos de valores maiores e mais inspiradores: mais energia para brincar com os filhos, longevidade para realizar sonhos, autoconfiança para buscar novas oportunidades. Isso eleva a conversa de uma mera obrigação para uma busca por autorrealização.
No cerne dessa abordagem está o princípio mais poderoso de Carnegie: "fazer a outra pessoa sentir-se importante, e fazê-lo sinceramente". Esta é a antítese absoluta do tratamento impessoal e padronizado do modelo comoditizado. Significa ouvir com atenção, lembrar de detalhes da vida do cliente, celebrar suas pequenas vitórias e tratá-lo como um indivíduo único e valioso. É essa qualidade de atenção e cuidado que constrói lealdade e transforma clientes em verdadeiros defensores da sua marca.
Comunicação Comoditizada (O que evitar) | Comunicação de Valor (O que praticar) |
Usar jargão técnico e confuso para demonstrar autoridade (Schopenhauer). | Ensinar conceitos complexos de forma simples e aplicável, focando no "porquê" (A Venda Desafiadora). |
Falar a maior parte do tempo, focando nas características do "produto" (plano). | Fazer perguntas abertas e ouvir atentamente, incentivando o cliente a falar sobre si mesmo (Dale Carnegie). |
Apresentar uma solução padrão antes de entender o problema a fundo. | Desafiar a percepção inicial do cliente, ajudando-o a ver a real dimensão do seu problema e a urgência da solução (A Venda Desafiadora). |
Manter uma postura distante, focada apenas nos dados objetivos (peso, medidas). | Demonstrar empatia genuína, conectando-se com o estado emocional do cliente e validando seus desafios (A Lógica da Emoção). |
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Manifesto do Nutricionista Descomoditizado
A transição de um serviço comoditizado para uma prática de alto valor exige uma redefinição fundamental da identidade e da atuação profissional. Este novo paradigma se sustenta nos seguintes princípios:
De Provedor a Parceiro Estratégico: Saímos da posição de técnico que entrega planos para nos tornarmos consultores que co-criam soluções de vida, desafiando as percepções do cliente e ensinando-o a gerir sua própria saúde.
Do Diagnóstico Superficial à Investigação Profunda: Abandonamos questionários padrão e adotamos a arte da escuta ativa e das perguntas de implicação (SPIN), buscando entender não apenas o que o cliente quer, mas por que ele quer e quais as consequências de não agir.
Do Plano Genérico à Ação Personalizada e Holística: Movemo-nos da prescrição de dietas para a arquitetura de planos de ação claros e gerenciáveis ("Próxima Ação"), que integram dados sobre o estilo de vida, o mindset e o ambiente social do cliente.
Da Comunicação Transacional à Linguagem da Parceria: Substituímos a comunicação impessoal e técnica por uma interação baseada em empatia radical, confiança e alinhamento com os valores mais nobres do cliente, tratando-o como um indivíduo único e não como um número.
A Nutrição como Arte da Transformação Humana
A resposta à crescente onda de comoditização na nutrição não é trabalhar mais ou cobrar menos, mas sim trabalhar de forma mais inteligente, mais estratégica e, fundamentalmente, mais humana. A diferenciação sustentável não virá de um novo método ou de uma dieta revolucionária, mas de uma profunda redefinição do papel do profissional.
Este artigo traçou uma jornada clara para essa transformação. Começamos com a compreensão da anatomia do problema na Parte I, dissecando a "armadilha do produto" e as forças de mercado que banalizam o conhecimento. Em seguida, na Parte II, mergulhamos na psicologia do cliente, revelando que por trás do pedido por um plano alimentar existe uma busca não declarada por segurança, parceria e alívio da angústia. Finalmente, na Parte III, construímos o paradigma do "Nutricionista Descomoditizado": um parceiro estratégico que domina a arquitetura de um serviço de alto valor e se comunica com a linguagem da empatia.
A visão final é inequívoca: o futuro da nutrição não reside na entrega de informação, que é abundante, gratuita e, por si só, ineficaz. O valor real está na curadoria dessa informação, na sua personalização radical e, acima de tudo, na facilitação da transformação pessoal. É uma transição de um cientista de alimentos para um arquiteto do comportamento humano. Ao abraçar essa nova identidade, o nutricionista não apenas garante sua relevância e prosperidade em um mercado saturado, mas também realiza o verdadeiro potencial da profissão: o de gerar um impacto profundo e duradouro na vida das pessoas, praticando a nutrição como a arte da transformação humana.
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Referências
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