O papel da testosterona em idosos: o que sabemos?
- Henrique Pereira
- 20 de mar. de 2024
- 6 min de leitura
O artigo "The Role of Testosterone in the Elderly: What Do We Know?" por Barone et al., publicado na revista International Journal of Molecular Sciences em 2022, oferece uma revisão abrangente sobre os efeitos da testosterona em homens idosos e as implicações clínicas da Terapia de Reposição de Testosterona (TRT). O envelhecimento masculino está associado a uma diminuição na produção de testosterona, levando a várias alterações fisiológicas e patológicas. A deficiência de testosterona nos homens mais velhos está relacionada com disfunção sexual, diminuição da massa e força muscular, densidade mineral óssea reduzida, aumento do risco cardiovascular, alterações no perfil glicometabólico e impacto na atividade mental.
A TRT demonstrou vários efeitos terapêuticos ao restaurar os níveis normais de testosterona, melhorando a libido, a energia, os benefícios na densidade óssea, força e massa muscular, além de oferecer efeitos cardioprotetores. No entanto, a TRT pode ser contraindicada em homens com câncer de próstata não tratado, e potenciais efeitos colaterais, como policitemia, eventos cardíacos e apneia obstrutiva do sono, devem ser monitorados.
A revisão destaca a importância de uma abordagem individualizada na administração da TRT, considerando a variabilidade dos valores de testosterona e as comorbidades nos idosos. Os autores salientam a necessidade de futuras pesquisas focadas em uma abordagem personalizada e multidisciplinar para equilibrar os benefícios e riscos da TRT, indicando a possibilidade de benefícios significativos em termos de vida sexual, atividade mental, metabolismo e integridade ósseo-muscular para pacientes selecionados.

Composição corporal:
A relação entre testosterona e composição corporal, como discutido no artigo de Barone et al. (2022), é complexa e multifacetada, impactando significativamente tanto a massa gorda quanto a massa magra. A revisão destaca que mais de 40% dos indivíduos obesos na população europeia apresentam níveis de testosterona total abaixo de 345 ng/dL, e 25% têm níveis abaixo de 300 ng/dL. O tecido adiposo contém enzimas como a aromatase e a aldo-ceto redutase, responsáveis pela metabolização da testosterona em estrogênio e 5-dihidrotestosterona, respectivamente, influenciando adversamente a distribuição de gordura e massa muscular.
A testosterona exerce efeitos anabólicos, como a diminuição da adiposidade visceral através da regulação positiva do receptor androgênico que ativa a lipólise, e o aumento da massa corporal magra, por meio da estimulação do sinal Wnt, que promove a diferenciação de células mesenquimais residentes em miócitos. Além disso, a testosterona suprime a diferenciação de células mesenquimais em linhagem adiposa, inibindo o receptor ativado por proliferadores de peroxissomos gama (PPARγ) e a proteína de ligação ao elemento de resposta a cAMP alfa (CEBPα), que regulam a adipogênese.
Estudos em homens submetidos à TRT relataram efeitos importantes na redução do Índice de Massa Corporal (IMC), circunferência da cintura e peso corporal, além de melhorias no perfil glicometabólico. Por exemplo, um estudo conduzido por Saad et al. demonstrou que a normalização dos níveis séricos de testosterona em homens hipogonadais, administrando undecanoato de testosterona intramuscular a cada 12 semanas, resultou em uma diminuição significativa no peso corporal e na circunferência da cintura.
O papel da testosterona na massa muscular também foi extensivamente avaliado, com seus efeitos correlacionados aos níveis séricos de testosterona. A testosterona é capaz de estimular a ativação, proliferação, sobrevivência e diferenciação de miócitos, além de aumentar a síntese proteica muscular, levando a um aumento no tamanho das fibras musculares. Estudos demonstraram que a TRT em homens com baixos níveis séricos de testosterona aumenta de forma segura a massa muscular e foi associada a melhorias na força e poder muscular, embora não tenha influenciado a fatigabilidade muscular ou a função física. Em resumo, o artigo revisado por Barone et al. (2022) enfatiza a influência significativa da testosterona na regulação da composição corporal, demonstrando como a TRT pode reverter as alterações adversas na massa gorda e magra em homens idosos hipogonadais, melhorando a qualidade de vida e reduzindo o risco de doenças metabólicas associadas.
Densidade Mineral Óssea:
A testosterona exerce um papel crucial na manutenção da saúde óssea, promovendo o crescimento e a manutenção dos ossos em homens e mulheres. O artigo destaca que a deficiência de testosterona relacionada à idade está associada a uma redução na densidade mineral óssea (DMO) e um aumento no risco de fraturas. A Terapia de Reposição de Testosterona (TRT) tem demonstrado efeitos benéficos sobre a DMO, especialmente na coluna lombar e no fêmur, áreas críticas para o risco de fraturas em homens idosos. Estudos citados no artigo relatam um aumento geral na DMO da coluna lombar em pacientes tratados com adesivos de testosterona comparados ao placebo.
Sistema Cardiovascular:
A relação entre testosterona e saúde cardiovascular é complexa, com estudos demonstrando tanto efeitos cardioprotetores quanto riscos potenciais associados à TRT. A deficiência de testosterona foi ligada a um aumento do risco de doenças cardiovasculares, enquanto a TRT pode oferecer benefícios, como a melhoria no perfil lipídico e na sensibilidade à insulina, que podem reduzir o risco cardiovascular. Contudo, o artigo também adverte sobre os resultados contraditórios de estudos que exploram o impacto da TRT no risco de eventos cardiovasculares, enfatizando a necessidade de cautela e monitoramento cuidadoso em pacientes com doença cardiovascular pré-existente.
Sensibilidade à Insulina:
O artigo aborda a associação entre baixos níveis de testosterona e diminuição da sensibilidade à insulina, o que pode contribuir para o desenvolvimento de diabetes tipo 2 e síndrome metabólica em homens idosos. Alguns estudos citados sugerem que a TRT pode melhorar a sensibilidade à insulina e reduzir o risco de desenvolver diabetes tipo 2 em homens com hipogonadismo, indicando um papel potencialmente terapêutico da testosterona no manejo da resistência à insulina e suas consequências metabólicas. Em conclusão, o artigo de Barone et al. (2022) destaca a importância da testosterona na regulação de vários processos fisiológicos críticos em homens idosos. A TRT pode oferecer benefícios significativos na densidade mineral óssea, saúde cardiovascular e sensibilidade à insulina, mas é essencial uma avaliação cuidadosa dos riscos e benefícios, especialmente em populações com comorbidades existentes. A necessidade de pesquisas adicionais é enfatizada para otimizar estratégias de tratamento e minimizar potenciais riscos associados à TRT.
Saúde Mental:
A revisão evidencia a relação significativa entre baixos níveis de testosterona e diversos aspectos da saúde mental, incluindo depressão, falta de concentração, medo e ansiedade. A testosterona tem atividades neuroprotetoras e está envolvida na regulação do humor e no bem-estar psicológico. Estudos citados sugerem que a TRT pode aliviar sintomas de depressão em homens hipogonadais, apontando para o papel potencial da testosterona no tratamento de distúrbios do humor em homens mais velhos com deficiência androgênica. Desempenho
Sexual:
O impacto da testosterona no desempenho sexual é bem documentado, com a deficiência desse hormônio frequentemente associada a problemas como disfunção erétil, diminuição do desejo sexual e distúrbios ejaculatórios. A TRT mostrou melhorias significativas na função erétil, libido e satisfação sexual em homens com hipogonadismo, reforçando a importância da testosterona na saúde sexual masculina. O artigo também discute a combinação de TRT com inibidores da fosfodiesterase tipo 5 como uma estratégia promissora para melhorar ainda mais a função erétil em homens com hipogonadismo e disfunção erétil refratária.
Próstata:
A relação entre testosterona e saúde da próstata é complexa e tem sido objeto de debate há décadas. Historicamente, acredita-se que a TRT poderia estimular o crescimento do câncer de próstata em homens predispostos. No entanto, revisões recentes, incluindo a de Barone et al., sugerem que a TRT é segura para homens com hipogonadismo, não aumentando o risco de câncer de próstata. O artigo revisa estudos que mostram ausência de aumento no risco de câncer de próstata em homens tratados com testosterona, bem como discute o "modelo de saturação", que sugere uma resposta não linear entre os níveis de testosterona e o crescimento do câncer de próstata, com efeitos mínimos sobre o crescimento do câncer em níveis normais de testosterona. Em suma, o artigo de Barone et al. (2022) oferece uma visão abrangente sobre o papel crucial da testosterona em diversas dimensões da saúde dos homens idosos, desde a saúde mental e desempenho sexual até a saúde da próstata. Destaca-se a importância da avaliação cuidadosa e do manejo individualizado na utilização da TRT, considerando os potenciais benefícios e riscos, especialmente em populações com condições pré-existentes.

Referência: Barone, B., Napolitano, L., Abate, M., Cirillo, L., Reccia, P., Passaro, F., Turco, C., Morra, S., Mastrangelo, F., Scarpato, A., et al. (2022). The Role of Testosterone in the Elderly: What Do We Know? International Journal of Molecular Sciences, 23(7), 3535. https://doi.org/10.3390/ijms23073535




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