A Relação Entre Aptidão Cardiorrespiratória e Câncer: O Que a Ciência Revela?
- Henrique Pereira
- 8 de mar. de 2025
- 3 min de leitura

A atividade física já é amplamente reconhecida como uma estratégia essencial para a prevenção de diversas doenças crônicas, mas qual é o impacto específico da aptidão cardiorrespiratória (CRF) na incidência e mortalidade por câncer? Um estudo recente publicado por Kunutsor et al. (2024) no periódico GeroScience analisou a influência da CRF em diferentes tipos de câncer e revelou descobertas surpreendentes sobre como o condicionamento físico pode atuar como um fator protetor contra essa doença.
O Que é Aptidão Cardiorrespiratória?
A aptidão cardiorrespiratória refere-se à capacidade do sistema cardiovascular e respiratório de fornecer oxigênio aos músculos durante o exercício aeróbico. Medida em METs (equivalentes metabólicos), ela está diretamente relacionada à capacidade do indivíduo de sustentar atividades físicas por períodos prolongados. Níveis elevados de CRF são frequentemente associados a uma redução no risco de doenças cardiovasculares, mas o estudo de Kunutsor et al. demonstrou que essa relação também se estende ao câncer.
A CRF Reduz o Risco de Diversos Tipos de Câncer
A revisão analisou um grande número de estudos epidemiológicos e encontrou uma relação inversa consistente entre a CRF e a incidência de vários tipos de câncer, incluindo:
Câncer de pulmão
Câncer de mama
Câncer gastrointestinal (especialmente pancreático e colorretal)
Câncer de bexiga
Os resultados mostraram que indivíduos com níveis mais altos de CRF (acima de 7 METs) apresentaram um risco significativamente menor de desenvolver esses tipos de câncer. O efeito protetor foi consistente entre diferentes grupos demográficos, como idade, sexo e raça, sugerindo que a CRF pode ser uma ferramenta universal na redução do risco oncológico.
Além da redução da incidência, o estudo também demonstrou que a CRF pode diminuir a mortalidade por câncer. Isso significa que indivíduos fisicamente ativos não apenas têm menos chances de desenvolver a doença, mas, caso sejam diagnosticados, possuem melhores perspectivas de recuperação e sobrevida.
Os Mecanismos Biológicos Envolvidos
Mas como a aptidão cardiorrespiratória influencia o risco de câncer? O estudo de Kunutsor et al. aponta para diversos mecanismos biológicos que podem explicar essa relação, incluindo:
Redução da Inflamação: A atividade física melhora a resposta anti-inflamatória do organismo, reduzindo a inflamação crônica, que está associada ao desenvolvimento de tumores malignos.
Regulação Hormonal: Exercícios aeróbicos regulam hormônios como estrogênio e insulina, que desempenham papéis fundamentais na progressão de cânceres hormônio-dependentes, como o de mama e endométrio.
Fortalecimento do Sistema Imunológico: A prática regular de exercícios melhora a vigilância imunológica, aumentando a capacidade do corpo de detectar e eliminar células cancerígenas em estágios iniciais.
Melhoria do Metabolismo: Indivíduos com melhor CRF apresentam um metabolismo mais eficiente, reduzindo a resistência à insulina e evitando a obesidade, um fator de risco conhecido para vários tipos de câncer.
Aumento da Função Pulmonar: No caso do câncer de pulmão, especificamente, níveis elevados de CRF podem melhorar a função pulmonar e reduzir os danos causados por agentes cancerígenos.
Efeitos da CRF em Cânceres Específicos
Enquanto a maioria dos cânceres apresentou uma associação inversa com a CRF, algumas exceções foram identificadas. Por exemplo, o estudo aponta que níveis elevados de CRF podem estar associados a um aumento no risco de câncer de próstata e alguns tipos de câncer hematológico (como leucemia e mieloma múltiplo). No entanto, os autores destacam que essa relação ainda não é conclusiva e pode ser influenciada por fatores como rastreamento mais frequente em indivíduos fisicamente ativos.
Implicações para a Saúde Pública
Os resultados do estudo reforçam a importância da atividade física regular como uma estratégia fundamental na prevenção do câncer. Dado que a CRF pode ser melhorada por meio de exercícios aeróbicos moderados a intensos, os pesquisadores recomendam a adoção de hábitos como:
Caminhadas rápidas ou corridas por pelo menos 150 a 300 minutos por semana.
Prática de exercícios como natação e ciclismo, que melhoram a resistência cardiorrespiratória.
Treinamento intervalado de alta intensidade (HIIT), que tem se mostrado eficiente na melhora da CRF em curto prazo.
Além disso, a CRF pode servir como um marcador clínico preventivo, ou seja, um fator que pode ser avaliado em consultas médicas para prever riscos de câncer e incentivar mudanças no estilo de vida.
Conclusão
O estudo de Kunutsor et al. (2024) reforça a importância de manter uma boa aptidão cardiorrespiratória para reduzir o risco de câncer e melhorar a sobrevida em indivíduos diagnosticados com a doença. A prática regular de exercícios físicos aeróbicos não só fortalece o coração e os pulmões, mas também oferece uma camada extra de proteção contra o câncer. Com base nessas evidências, a incorporação de hábitos ativos deve ser uma prioridade não apenas para atletas, mas para toda a população.
Referência ABNT:
KUNUTSOR, Setor K.; KAMINSKY, Leonard A.; LEHOCZKI, Andrea; LAUKKANEN, Jari A. Unraveling the link between cardiorespiratory fitness and cancer: a state-of-the-art review. GeroScience, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s11357-024-01222-z. Acesso em: [data do acesso].




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