Agonistas do Receptor de GLP-1 no Tratamento da Obesidade:
- 15 de abr.
- 18 min de leitura
Mecanismos de Ação, Comparativo de Fármacos, Preservação Muscular e Estratégias Nutricionais
Prof. Henrique Pereira · contato@profhenriquepereira.pt · Abril de 2026
Resumo
Os agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1) representam uma das mais significativas inovações farmacológicas dos últimos anos no campo do tratamento da obesidade. A semaglutida (Ozempic®/Wegovy®), a tirzepatida (Mounjaro®) e o retatrutide, moléculas com diferentes perfis de agonismo incretínico, têm demonstrado reduções de peso corporal variando de 15% a mais de 24% em ensaios clínicos randomizados de fase 2 e 3. Apesar dos resultados expressivos, o uso dessas terapias acompanha-se de uma perda significativa de massa muscular — equivalente, em alguns estudos, a décadas de sarcopenia relacionada ao envelhecimento. O presente artigo revisa a fisiologia do GLP-1, o mecanismo de ação dos principais fármacos disponíveis e emergentes, e discute estratégias baseadas em evidências para preservação da massa muscular e otimização da composição corporal durante o uso dessas terapias, com destaque para intervenções nutricionais e de exercício físico.
Palavras-chave: GLP-1; semaglutida; tirzepatida; retatrutide; obesidade; massa muscular; nutrição esportiva; exercício físico.
Introdução
A obesidade é uma doença crônica multifatorial que afeta cerca de 19% das mulheres e 14% dos homens em nível global, constituindo-se em um importante fator de risco para diabetes mellitus tipo 2, doenças cardiovasculares, apneia obstrutiva do sono, determinados tipos de câncer e diversas outras comorbidades (GUDZUNE; KUSHNER, 2024). Nas últimas décadas, as abordagens farmacológicas para o manejo da obesidade avançaram consideravelmente, evoluindo de substâncias com mecanismos centrais inespecíficos para moléculas altamente seletivas que mimetizam hormônios intestinais endógenos com papel central na regulação do apetite e do metabolismo energético.
Nesse contexto, os agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1 RA, do inglês glucagon-like peptide-1 receptor agonists) emergem como a classe farmacológica de maior destaque na atualidade, com eficácia sem precedentes em termos de redução de peso e melhora de marcadores cardiometabólicos. A semaglutida subcutânea 2,4 mg/semana (Wegovy®), aprovada para tratamento de obesidade nos Estados Unidos e na Europa, demonstrou redução média de aproximadamente 15% do peso corporal basal em 68 semanas de tratamento (CHAO et al., 2021). A tirzepatida, um duplo agonista GIP/GLP-1 (Mounjaro®), alcançou reduções ainda maiores, de até 22,5% em ensaios de fase 3 (MELSON et al., 2024). E o retatrutide, um triplo agonista GLP-1/GIP/glucagon em fase 3, atingiu 24,2% de redução ponderal em 48 semanas no estudo de fase 2 (JAKUBOWSKA; ROUX; VILJOEN, 2024).
Entretanto, o impacto dessas intervenções sobre a composição corporal — especialmente a perda de massa muscular esquelética — representa uma preocupação crescente na literatura científica e na prática clínica. Metanálises recentes indicam que cerca de 25% da perda ponderal total durante o uso de GLP-1 RA corresponde a massa livre de gordura (KARAKASIS et al., 2024), o que pode ter consequências relevantes para a funcionalidade, a saúde metabólica e a manutenção do peso a longo prazo.
Diante desse cenário, a integração de estratégias nutricionais adequadas e de programas de exercício físico, especialmente de resistência, torna-se imperativa para otimizar os resultados do tratamento farmacológico da obesidade com agonistas incretínicos. O presente artigo tem por objetivo revisar, de forma abrangente e com base nas evidências científicas mais recentes, os mecanismos de ação dos principais GLP-1 RA disponíveis e emergentes, discutir o impacto dessas terapias sobre a composição corporal e apresentar estratégias nutricionais e de exercício para preservação da massa muscular durante o uso dessas medicações.

Fisiologia do GLP-1 e Mecanismo de Ação dos Agonistas Incretínicos
O GLP-1 é um peptídeo de 30 aminoácidos secretado pelas células L do intestino delgado e do cólon em resposta à ingestão alimentar. Em condições fisiológicas, o GLP-1 endógeno possui meia-vida plasmática extremamente curta — inferior a dois minutos —, sendo rapidamente degradado pela enzima dipeptidil peptidase-4 (DPP-4) (DRUCKER, 2021). Suas ações biológicas abrangem múltiplos sistemas orgânicos, coordenando uma resposta integrada à ingestão de nutrientes.
Ações centrais
No sistema nervoso central, os receptores de GLP-1 estão amplamente distribuídos em regiões envolvidas na regulação do apetite e do comportamento alimentar, incluindo o hipotálamo (especialmente o núcleo arqueado e o núcleo paraventricular), a área tegmental ventral, o núcleo do trato solitário e o núcleo accumbens. A ativação desses receptores promove saciedade, reduz a ingestão calórica e pode modular os circuitos de recompensa alimentar, atenuando o desejo por alimentos hipercalóricos (MOIZ et al., 2025; DRUCKER, 2021).
Evidências pré-clínicas e clínicas sugerem que os GLP-1 RA de ação prolongada — como a semaglutida — exercem seus efeitos anorexígenos predominantemente por acesso direto ao sistema nervoso central, atravessando a barreira hematoencefálica em regiões de acesso facilitado, como os órgãos circunventriculares. Esse mecanismo central distingue os GLP-1 RA modernos dos análogos mais antigos de ação curta, cujo efeito inibitório sobre o apetite ocorria principalmente via nervo vago (DRUCKER, 2021).
Ações periféricas
Perifericamente, o GLP-1 atua potencializando a secreção de insulina de forma glicose-dependente, suprimindo a secreção de glucagon, retardando o esvaziamento gástrico e modulando a motilidade intestinal. O retardo do esvaziamento gástrico contribui diretamente para o prolongamento da saciedade pós-prandial e para a redução da velocidade de absorção de nutrientes, favorecendo um perfil glicêmico mais estável (MOIZ et al., 2025).
Além dessas ações clássicas, o GLP-1 exerce efeitos anti-inflamatórios no tecido adiposo, reduz a deposição ectópica de gordura (inclusive hepática e visceral), melhora o perfil lipídico e demonstrou ações cardioprotetoras independentes da perda de peso, como evidenciado pelo estudo SELECT com semaglutida (ARD et al., 2021; MOIZ et al., 2025).
Síntese fisiológica: O GLP-1 age como um maestro hormonal pós-prandial, coordenando saciedade central, controle glicêmico periférico e modulação metabólica sistêmica. Os fármacos GLP-1 RA amplificam e prolongam essas ações através de moléculas resistentes à degradação enzimática.
Da Semaglutida ao Retatrutide: Uma Nova Geração de Fármacos
A evolução dos fármacos baseados em incretinas acompanhou a compreensão crescente da fisiologia dos hormônios intestinais. O paradigma passou de agonistas seletivos do receptor de GLP-1 para moléculas que simultaneamente ativam múltiplos receptores de hormônios incretínicos, com ganhos adicionais em eficácia e perfil metabólico (NAUCK; MÜLLER, 2023; JIANG et al., 2024).
Semaglutida (Ozempic®/Wegovy®): o padrão atual
A semaglutida é um análogo do GLP-1 humano com 94% de homologia à molécula endógena, modificado para resistir à degradação pela DPP-4 e com ligação albumínica que prolonga sua meia-vida para aproximadamente sete dias, permitindo administração semanal. Na dose de 2,4 mg/semana (Wegovy®), aprovada pelo FDA em 2021 e pela EMA em 2022, a semaglutida demonstrou redução média de aproximadamente 15% do peso corporal em 68 semanas, com 69% dos participantes alcançando redução ≥5% e 32% alcançando redução ≥15% (CHAO et al., 2021).
Em metanálise publicada no JAMA, Gudzune e Kushner (2024) analisaram 5 ensaios clínicos randomizados (n=4.421) e identificaram que a semaglutida foi associada a 11,4% de maior perda de peso em relação ao placebo, tornando-se o GLP-1 RA com maior eficácia isolada até então. Além da redução ponderal, o estudo SELECT demonstrou redução de 20% nos eventos cardiovasculares maiores em pacientes obesos sem diabetes, consolidando o perfil cardioprotetor do fármaco.
Tirzepatida (Mounjaro®): o duplo agonista GIP/GLP-1
A tirzepatida representa um avanço farmacológico significativo ao co-ativar simultaneamente os receptores de GLP-1 e do peptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP). Enquanto o GLP-1 exerce ações anorexígenas robustas, o GIP potencializa a secreção de insulina e parece exercer efeitos complementares sobre o metabolismo lipídico e a sensibilidade à insulina no tecido adiposo. A sinergia dessas ações resulta em maior eficácia no controle glicêmico e na perda de peso em comparação com os agonistas seletivos de GLP-1 (NAUCK; D'ALESSIO, 2022).
No programa SURMOUNT para tratamento da obesidade, a tirzepatida 15 mg/semana promoveu redução média de peso de 22,5% em 72 semanas. Nauck e D'Alessio (2022) reportaram que 68,4% dos participantes atingiram redução de peso ≥10% e que a tirzepatida foi significativamente mais eficaz do que a semaglutida 1,0 mg/semana tanto para controle glicêmico quanto para redução ponderal nos estudos SURPASS. Em metanálise publicada no JAMA (GUDZUNE; KUSHNER, 2024), a tirzepatida 15 mg foi associada a 12,4% de maior perda de peso vs. placebo (6 RCTs; 1.972 participantes), superando numericamente todos os demais fármacos analisados.
Retatrutide: o triplo agonista GLP-1/GIP/Glucagon
O retatrutide constitui a fronteira atual do desenvolvimento farmacológico para obesidade, atuando simultaneamente como agonista dos receptores de GLP-1, GIP e glucagon. A adição do agonista do receptor de glucagon ao perfil incretínico visa potencializar o gasto energético — uma vez que o glucagon estimula a termogênese hepática, a beta-oxidação e a lipólise —, contribuindo para maior redução da massa adiposa em associação com os efeitos anorexígenos do GLP-1 e do GIP (JAKUBOWSKA; ROUX; VILJOEN, 2024; JIANG et al., 2024).
No estudo de fase 2 publicado em 2023, o retatrutide 12 mg/semana promoveu redução ponderal média de 24,2% em 48 semanas em pacientes com obesidade sem diabetes mellitus tipo 2 — o maior efeito já reportado para uma molécula única em ensaio clínico randomizado. Em revisão sistemática recente, Misra et al. (2025) confirmaram a consistência desses achados e destacaram que o fármaco também promoveu redução de 82% na esteatose hepática e melhoras expressivas em pressão arterial, circunferência abdominal e perfil lipídico. O programa de fase 3 encontra-se em andamento.
Goldney et al. (2025) revisaram o pipeline de triplos agonistas e ressaltaram que, embora os dados preliminares sejam altamente promissores, questões relativas à segurança cardiovascular a longo prazo, impacto sobre a massa muscular esquelética e estratégias de retirada gradual do fármaco ainda precisam ser melhor caracterizadas em estudos de fase 3 de maior duração.
Quadro comparativo dos principais fármacos incretínicos
Fármaco | Mecanismo | Redução Ponderal | Fase Regulatória | Observações-chave |
Semaglutida(Ozempic®/Wegovy®) | Agonista GLP-1 RAseletivo | ~15% em 68 sem. | Aprovado (obesidade + DM2) | Eficácia cardiovascular comprovada (SELECT) |
Tirzepatida(Mounjaro®) | Duplo agonistaGIP/GLP-1 | ~22,5% em 72 sem. | Aprovado (DM2 e obesidade) | Maior eficácia vs. semaglutida nos estudos SURPASS |
Retatrutide | Triplo agonistaGLP-1/GIP/Glucagon | ~24,2% em 48 sem. | Fase 3 (em andamento) | Maior redução ponderal já reportada em fase 2 |
Liraglutida(Saxenda®) | Agonista GLP-1 RA(1×/dia) | ~4,7% vs. placebo | Aprovado (obesidade) | Menor eficácia; único que não reduziu significativamente massa magra |
Fontes: Chao et al. (2021); Gudzune; Kushner (2024); Nauck; D'Alessio (2022); Jakubowska; Roux; Viljoen (2024); Misra et al. (2025).
O Impacto dos GLP-1 RA sobre a Composição Corporal: A Questão da Massa Muscular
Um aspecto crítico do uso de GLP-1 RA que merece atenção especial dos profissionais de saúde é o impacto dessas terapias sobre a composição corporal, particularmente a perda de massa muscular esquelética. Embora a redução ponderal substancial promovida por esses fármacos seja inequivocamente benéfica do ponto de vista cardiometabólico, a perda concomitante de massa magra pode ter consequências funcionais e metabólicas relevantes a longo prazo (MECHANICK et al., 2024).
Magnitude da perda de massa muscular
Em revisão sistemática e metanálise de rede publicada na revista Metabolism, Karakasis et al. (2024) analisaram 22 ensaios clínicos randomizados (2.258 participantes) e identificaram que os GLP-1 RA reduziram significativamente não apenas a massa gorda (diferença média de -2,95 kg; IC95%: -4,11; -1,79) como também a massa magra (diferença média de -0,86 kg; IC95%: -1,30; -0,42). A perda de massa magra correspondeu a aproximadamente 25% da perda ponderal total. Notavelmente, a tirzepatida 15 mg/semana e a semaglutida 2,4 mg/semana foram as mais eficazes na redução de peso e massa gorda, mas figuraram entre as menos eficazes na preservação da massa magra.
Locatelli et al. (2024), em revisão narrativa publicada no Diabetes Care, quantificaram que os pacientes em uso de agentes incretínicos (incluindo liraglutida, semaglutida, tirzepatida e retatrutide) perderam em média aproximadamente 10% ou cerca de 6 kg de massa magra durante intervenções de 68 a 72 semanas. Os autores destacaram que essa magnitude de perda muscular é comparável a uma ou mais décadas de sarcopenia relacionada ao envelhecimento, ressaltando a gravidade potencial desse efeito, especialmente em idosos ou em indivíduos com massa muscular já comprometida.
Mecanismos da perda muscular
A perda muscular durante o uso de GLP-1 RA é multifatorial. Em primeiro lugar, a redução calórica significativa — frequentemente superior a 500 kcal/dia — associada à diminuição do apetite induzida pelo fármaco pode resultar em ingestão protéica inadequada, comprometendo a síntese proteica muscular e favorecendo o catabolismo. Em segundo lugar, a redução na ingestão alimentar total pode acompanhar-se de déficits de micronutrientes essenciais para o metabolismo muscular, como vitamina D, zinco, magnésio e vitamina B12 (CHAVEZ et al., 2025).
Do ponto de vista bioquímico, Koceva et al. (2025) revisaram evidências pré-clínicas e translacionais sugerindo que os receptores de GLP-1 estão presentes no músculo esquelético e que a ativação desses receptores pode, paradoxalmente, exercer efeitos protetores sobre a miogênese, atenuar a atrofia muscular, melhorar a função mitocondrial e reduzir a mioesteatose. Contudo, esses efeitos músculo-específicos possivelmente não são suficientes para contrabalançar as perdas decorrentes da restrição calórica acelerada promovida pelos fármacos no contexto clínico real.
Adicionalmente, Mechanick et al. (2024) ressaltam que muitos pacientes em uso de drogas incretínicas não recebem orientação adequada quanto à ingestão proteica e ao exercício físico, expondo-se assim a riscos de sarcopenia e de comprometimento funcional que podem, ironicamente, neutralizar parte dos benefícios metabólicos da perda de peso.
Implicações clínicas da sarcopenia induzida pela terapia
A perda de massa muscular durante o tratamento com GLP-1 RA tem implicações que transcendem a questão estética. Do ponto de vista funcional, o músculo esquelético é o principal sítio de captação insulino-mediada de glicose, respondendo por aproximadamente 80% do clearance glicêmico pós-prandial. Sua redução pode, portanto, comprometer a sensibilidade insulínica conquistada pela perda de peso, limitando os ganhos metabólicos a longo prazo (KOCEVA et al., 2025).
Do ponto de vista da manutenção do peso, a massa muscular é um determinante fundamental da taxa metabólica basal (TMB). Perdas significativas de massa magra reduzem o gasto energético em repouso, predispondo ao reganho de peso — fenômeno amplamente documentado após a interrupção de GLP-1 RA, com estudos indicando recuperação de mais de dois terços do peso perdido no primeiro ano após a retirada do fármaco (LOCATELLI et al., 2024). A preservação da massa muscular durante a terapia pode, portanto, ser um fator protetor crítico contra o efeito rebote pós-descontinuação.
Ponto crítico para a prática clínica: A perda de massa muscular durante o uso de GLP-1 RA não é uma questão menor — ela representa, em alguns estudos, o equivalente a uma ou duas décadas de sarcopenia acelerada. Estratégias de preservação muscular devem ser implementadas desde o início do tratamento, não apenas quando a sarcopenia já está instalada.
Estratégias para Preservação da Massa Muscular Durante o Uso de GLP-1 RA
Exercício de resistência: a intervenção mais eficaz
O treinamento de resistência (musculação) é, de longe, a intervenção com maior evidência para preservação e ganho de massa muscular durante períodos de restrição calórica. Locatelli et al. (2024) compilaram dados de múltiplos estudos demonstrando que intervenções supervisionadas de treinamento de resistência com duração superior a 10 semanas produzem ganhos médios de aproximadamente 3 kg de massa magra e 25% de aumento de força em homens e mulheres, mesmo em contexto de déficit energético.
Os autores propõem que o treinamento de resistência seja recomendado como adjuvante sistemático ao tratamento com drogas incretínicas, com o objetivo de otimizar a composição corporal — maximizando a perda de gordura e minimizando a perda muscular. A hipótese subjacente é que a preservação da massa magra durante a terapia farmacológica pode atenuar o reganho de peso após a descontinuação do medicamento, uma vez que a massa muscular mantém taxas metabólicas mais elevadas (LOCATELLI et al., 2024).
Mecanicamente, o exercício de resistência estimula a síntese protéica miofibrilar via ativação da via mTORC1 (mechanistic target of rapamycin complex 1), aumenta a sensibilidade muscular ao estímulo anabólico da leucina e da insulina, e promove adaptações neuromusculares que não dependem parcialmente do balanço energético. Isso confere ao treinamento de resistência um perfil único para a preservação muscular mesmo em contextos de déficit calórico significativo (MECHANICK et al., 2024).
Para pacientes em uso de GLP-1 RA, recomenda-se a prescrição de treinamento de resistência de moderada a alta intensidade (60-80% de 1RM), com frequência mínima de 2-3 sessões semanais, abrangendo os principais grupamentos musculares. A progressão de cargas deve ser monitorada para garantir sobrecarga progressiva, principal catalisador da hipertrofia muscular e da manutenção da massa magra (MECHANICK et al., 2024; LOCATELLI et al., 2024).
Ingestão de proteína: pilar nutricional insubstituível
A adequação da ingestão proteica é o principal pilar nutricional para a preservação da massa muscular durante a terapia com GLP-1 RA. A forte supressão do apetite promovida por esses fármacos pode levar a reduções substanciais na ingestão alimentar total que, se não acompanhadas de orientação nutricional individualizada, resultam inevitavelmente em déficit protéico (MECHANICK et al., 2024).
Chavez et al. (2025), em revisão publicada no Current Opinion in Clinical Nutrition and Metabolic Care, destacam que até 40% da perda ponderal total com GLP-1 RA pode ser proveniente de massa livre de gordura quando a ingestão proteica é inadequada. Os autores recomendam que pacientes em uso dessas terapias mantenham ingestão proteica de 1,2 a 1,6 g/kg de peso corporal por dia como mínimo, podendo atingir 1,8 a 2,0 g/kg/dia em indivíduos que realizam treinamento de resistência regularmente ou apresentam maior risco de sarcopenia.
A qualidade da proteína é igualmente relevante. Fontes proteicas com alto teor de leucina — o principal aminoácido ativador da síntese proteica via mTORC1 — como carnes magras, ovos, laticínios e proteínas de soro de leite (whey protein), devem ser priorizadas. A distribuição da ingestão proteica ao longo do dia, em porções de 25-40 g de proteína de alta qualidade por refeição, maximiza a estimulação da síntese proteica muscular em comparação com uma distribuição assimétrica que concentra a proteína em apenas uma refeição (CHAVEZ et al., 2025).
Para pacientes com apetite muito suprimido pelo uso do fármaco, o uso de suplementos proteicos — como whey protein, proteína de ervilha ou caseína — pode ser uma estratégia eficaz para atingir as metas proteicas diárias sem necessidade de grandes volumes alimentares. Mechanick et al. (2024) incluem o uso de suplementos nutricionais orais como uma recomendação de grau A para todos os pacientes em uso de drogas incretínicas para obesidade.
Micronutrientes críticos durante a terapia com GLP-1 RA
A redução na ingestão alimentar total imposta pelos GLP-1 RA cria risco potencial de deficiências de micronutrientes, com implicações diretas para a saúde muscular e metabólica. Chavez et al. (2025) identificaram que os nutrientes mais frequentemente deficientes em pacientes em uso dessas medicações incluem vitamina D, vitamina B12, zinco, magnésio, cálcio, ferro e ácidos graxos ômega-3.
A vitamina D merece destaque especial: sua deficiência está associada à sarcopenia, redução da força muscular e comprometimento da função neuromuscular. Doses de manutenção de 1.000 a 4.000 UI/dia são frequentemente necessárias para manter níveis séricos de 25-OH vitamina D acima de 30 ng/mL em indivíduos obesos, especialmente durante período de restrição alimentar (CHAVEZ et al., 2025).
Os ácidos graxos ômega-3 (EPA e DHA) apresentam propriedades anti-inflamatórias e potencial anabolizante muscular em contexto de restrição calórica, com evidências de atenuação da proteólise muscular e melhora da síntese protéica, especialmente em idosos. A suplementação de 2-4 g/dia de EPA+DHA pode ser considerada em pacientes com ingestão reduzida de peixes gordurosos (CHAVEZ et al., 2025).
A creatina monoidratada (3-5 g/dia) representa outra intervenção com suporte em evidências para preservação muscular durante períodos de restrição calórica, especialmente quando associada ao treinamento de resistência. Sua suplementação aumenta os estoques intramusculares de fosfocreatina, potencializando a capacidade de treino e os estímulos anabólicos decorrentes.
Estratégias Nutricionais Abrangentes para Quem Usa GLP-1 RA
A terapia com GLP-1 RA não elimina a necessidade de orientação nutricional — ao contrário, ela a torna ainda mais indispensável. A modificação do comportamento alimentar induzida pelo fármaco (menor ingestão calórica, saciedade precoce, alterações nas preferências alimentares) cria um contexto em que a qualidade do que é consumido se torna proporcionalmente mais relevante do que a quantidade (MECHANICK et al., 2024; CHAVEZ et al., 2025).
Padrão alimentar recomendado
Diante da redução substancial no volume alimentar, o planejamento da dieta deve priorizar alimentos de alta densidade nutricional — ricos em proteínas, vitaminas, minerais e fibras, com baixo índice energético. A seguir, são detalhadas as principais recomendações para pacientes em uso de GLP-1 RA com base nas evidências disponíveis:
Proteína de alta qualidade: Priorizar fontes proteicas com perfil completo de aminoácidos essenciais a cada refeição. Carnes magras (frango, peru, carne bovina magra), ovos inteiros, laticínios (iogurte grego, cottage, queijos magros), peixes e frutos do mar, leguminosas (feijão, lentilha, grão-de-bico) e, quando necessário, suplementos proteicos. Meta: 1,2–2,0 g/kg/dia distribuída em 3-5 refeições.
Carboidratos de qualidade: Preferir fontes de carboidratos complexos e de baixo índice glicêmico (batata-doce, aveia, arroz integral, leguminosas), minimizando o consumo de açúcares simples e ultraprocessados. A ingestão de fibras solúveis favorece a motilidade intestinal (reduzida pelo fármaco) e contribui para a saciedade.
Gorduras funcionais: Incluir fontes de gorduras mono e poli-insaturadas (azeite de oliva extravirgem, abacate, oleaginosas, sardinha, salmão) que contribuem para saciedade, absorção de vitaminas lipossolúveis e controle inflamatório.
Hidratação adequada: O retardo do esvaziamento gástrico e a redução da ingesta hídrica podem predispor à desidratação. Recomenda-se ingestão mínima de 35 mL/kg/dia de água, distribuída ao longo do dia, evitando volumes elevados nas refeições (que podem exacerbar desconforto gástrico).
Fracionamento e adaptações ao apetite suprimido
A saciedade precoce característica do uso de GLP-1 RA demanda adaptação na estrutura das refeições. Em vez de grandes refeições, o fracionamento em 4 a 6 pequenas refeições ao longo do dia pode facilitar o atingimento das metas proteicas e calóricas diárias sem provocar desconforto gástrico. Preparações de alta densidade proteica — como vitaminas com proteína em pó, iogurte grego com frutas e granola proteica, ovos mexidos com queijo, ou shakes proteicos — são estratégias práticas e bem toleradas nesse contexto (MECHANICK et al., 2024).
O profissional de saúde deve monitorar periodicamente a adequação nutricional por meio de recordatórios alimentares ou registros de 3 dias, identificando precocemente déficits proteicos ou de micronutrientes e ajustando o plano alimentar conforme necessário. Exames laboratoriais periódicos (a cada 3-6 meses) para vitamina D, B12, hemograma completo, zinco e magnésio são recomendados durante o tratamento com GLP-1 RA (CHAVEZ et al., 2025).
Manejo da náusea e dos efeitos gastrointestinais
Náusea, vômito, diarreia e constipação são os efeitos adversos mais prevalentes no início da terapia com GLP-1 RA, com incidência de 28-44% para náusea e 21-30% para diarreia na revisão de Gudzune e Kushner (2024). Essas queixas são mais intensas nas primeiras semanas de tratamento ou após escalonamento de dose e tendem a diminuir progressivamente. Do ponto de vista nutricional, as estratégias de manejo incluem:
Preferir alimentos de fácil digestão (arroz, purê de batata, banana, pão de forma, caldo de legumes) nas fases iniciais do tratamento ou nos dias seguintes à administração do fármaco;
Evitar alimentos gordurosos, fritos, condimentados ou muito fibrosos que exacerbam os sintomas gastrointestinais no período de adaptação;
Realizar refeições pequenas e frequentes, mastigando bem e comendo lentamente, minimizando o risco de refluxo e distensão gástrica;
Manter hidratação constante ao longo do dia, em pequenas porções, especialmente nos dias de ocorrência de diarreia ou vômito.
Discussão: Integrando Farmacologia, Nutrição e Exercício na Prática Clínica
A síntese das evidências disponíveis aponta para um consenso emergente: o uso isolado de GLP-1 RA, sem suporte nutricional e de exercício físico adequados, é uma abordagem subótima que subutiliza o potencial terapêutico dessas medicações e expõe o paciente a riscos evitáveis. A tríade farmacologia + nutrição + exercício deve ser concebida como um sistema integrado, e não como estratégias concorrentes ou sequenciais (MECHANICK et al., 2024; LOCATELLI et al., 2024).
Do ponto de vista clínico, o tratamento com GLP-1 RA cria uma janela de oportunidade singular: a redução substancial do apetite e a diminuição da resistência insulínica favorecem o ambiente hormonal para a perda de gordura. Ao mesmo tempo, o fármaco reduz o limiar de percepção de esforço físico em alguns pacientes, podendo facilitar a adesão ao exercício. Esse cenário favorável deve ser aproveitado com a implementação concomitante de hábitos nutricionais e de treinamento que potencializem a perda seletiva de gordura e preservem — ou mesmo aumentem — a massa muscular esquelética (KOCEVA et al., 2025).
No horizonte farmacológico, a chegada de moléculas como o retatrutide e outros triplos agonistas em desenvolvimento deve ampliar ainda mais a eficácia das intervenções anti-obesidade. Melson et al. (2024) e Goldney et al. (2025) revisam um pipeline rico de moléculas combinadas que, em breve, poderão rivalizar com os resultados da cirurgia bariátrica em termos de perda ponderal. Contudo, maior eficácia farmacológica também implica maior restrição calórica relativa e, possivelmente, maior risco de perda muscular — tornando as estratégias de preservação muscular ainda mais críticas com as novas gerações de fármacos.
A crescente popularização dos GLP-1 RA — evidenciada pelo aumento exponencial de buscas por termos como 'Ozempic', 'Wegovy' e 'dieta para quem usa GLP-1' — demanda que profissionais de nutrição e medicina do esporte estejam preparados para acompanhar esses pacientes com protocolos integrados e baseados em evidências. A orientação empírica, sem suporte científico, pode resultar em perda excessiva de massa muscular, deficiências nutricionais e comprometimento dos resultados a longo prazo (MECHANICK et al., 2024).
Conclusão
Os agonistas do receptor de GLP-1 e seus sucessores duais e triplos representam uma revolução no tratamento farmacológico da obesidade, com eficácia que se aproxima progressivamente da cirurgia bariátrica. A semaglutida, a tirzepatida e o retatrutide oferecem reduções ponderais de 15%, 22,5% e 24,2%, respectivamente, acompanhadas de benefícios cardiometabólicos consistentes.
Entretanto, a perda de massa muscular esquelética — equivalente a uma ou mais décadas de sarcopenia acelerada — emerge como um efeito colateral clinicamente relevante que demanda atenção sistemática. As evidências disponíveis indicam que a combinação de treinamento de resistência (≥2-3 sessões/semana) e ingestão proteica adequada (1,2-2,0 g/kg/dia) são as intervenções com maior suporte para preservação da massa muscular durante a terapia com GLP-1 RA.
A nutrição desempenha um papel central e insubstituível nesse contexto: a qualidade do que é consumido torna-se proporcionalmente mais crítica quando o volume alimentar é reduzido pelo fármaco. O acompanhamento nutricional individualizado, com monitoramento periódico de marcadores laboratoriais e ajuste contínuo do plano alimentar, deve ser considerado um componente indissociável do tratamento farmacológico da obesidade com GLP-1 RA.
Por fim, a perspectiva de moléculas ainda mais potentes — como o retatrutide em fase 3 e outras combinações em desenvolvimento — reforça a necessidade de protocolos clínicos integrados que associam farmacologia, nutrição e exercício físico, garantindo que os ganhos em peso sejam primordialmente de gordura e não de massa muscular funcional.
Referências
ARD, J. et al. Weight Loss and Maintenance Related to the Mechanism of Action of Glucagon-Like Peptide 1 Receptor Agonists. Advances in Therapy, v. 38, n. 6, p. 2821-2839, 2021. DOI: 10.1007/s12325-021-01710-0.
CHAVEZ, A. M. et al. Nutrition support whilst on glucagon-like peptide-1 based therapy. Is it necessary? Current Opinion in Clinical Nutrition and Metabolic Care, v. 28, n. 4, p. 351-357, 2025. DOI: 10.1097/MCO.0000000000001130.
CHAO, A. M. et al. Semaglutide for the treatment of obesity. Trends in Cardiovascular Medicine, v. 33, n. 3, p. 159-166, 2021. DOI: 10.1016/j.tcm.2021.12.008.
DRUCKER, D. J. GLP-1 physiology informs the pharmacotherapy of obesity. Molecular Metabolism, v. 57, p. 101351, 2021. DOI: 10.1016/j.molmet.2021.101351.
GOLDNEY, J. et al. Triple Agonism Based Therapies for Obesity. Current Cardiovascular Risk Reports, v. 19, n. 1, p. 18, 2025. DOI: 10.1007/s12170-025-00770-z.
GUDZUNE, K. A.; KUSHNER, R. F. Medications for Obesity: A Review. JAMA, v. 332, n. 7, p. 571-584, 2024. DOI: 10.1001/jama.2024.10816.
JAKUBOWSKA, A.; ROUX, C. W. LE; VILJOEN, A. The Road towards Triple Agonists: Glucagon-Like Peptide 1, Glucose-Dependent Insulinotropic Polypeptide and Glucagon Receptor — An Update. Endocrinology and Metabolism (Seoul), v. 39, n. 1, p. 12-22, 2024. DOI: 10.3803/EnM.2024.1942.
JIANG, Y. et al. Why does GLP-1 agonist combined with GIP and/or GCG agonist have greater weight loss effect than GLP-1 agonist alone in obese adults without type 2 diabetes? Diabetes, Obesity & Metabolism, v. 27, n. 3, p. 1079-1095, 2024. DOI: 10.1111/dom.16106.
KARAKASIS, P. et al. Effect of glucagon-like peptide-1 receptor agonists and co-agonists on body composition: Systematic review and network meta-analysis. Metabolism: Clinical and Experimental, v. 164, p. 156113, 2024. DOI: 10.1016/j.metabol.2024.156113.
KOCEVA, A.; JANEŽ, A.; JENSTERLE, M. Impact of Incretin-Based Therapy on Skeletal Muscle Health. Medicina (Kaunas), v. 61, n. 9, 2025. DOI: 10.3390/medicina61091691.
LOCATELLI, J. C. et al. Incretin-Based Weight Loss Pharmacotherapy: Can Resistance Exercise Optimize Changes in Body Composition? Diabetes Care, v. 47, n. 10, p. 1718-1730, 2024. DOI: 10.2337/dci23-0100.
MECHANICK, J. I. et al. Strategies for minimizing muscle loss during use of incretin-mimetic drugs for treatment of obesity. Obesity Reviews, v. 26, n. 1, p. e13841, 2024. DOI: 10.1111/obr.13841.
MELSON, E. et al. What is the pipeline for future medications for obesity? International Journal of Obesity, v. 49, n. 3, p. 433-451, 2024. DOI: 10.1038/s41366-024-01473-y.
MISRA, S. et al. Efficacy and safety of retatrutide for the treatment of obesity: a systematic review of clinical trials. Journal of Basic and Clinical Physiology and Pharmacology, v. 36, n. 4, p. 263-274, 2025. DOI: 10.1515/jbcpp-2025-0113.
MOIZ, A. et al. Mechanisms of GLP-1 Receptor Agonist-Induced Weight Loss: A Review of Central and Peripheral Pathways in Appetite and Energy Regulation. The American Journal of Medicine, v. 138, n. 6, p. 934-940, 2025. DOI: 10.1016/j.amjmed.2025.01.021.
NAUCK, M. A.; D'ALESSIO, D. A. Tirzepatide, a dual GIP/GLP-1 receptor co-agonist for the treatment of type 2 diabetes with unmatched effectiveness regarding glycaemic control and body weight reduction. Cardiovascular Diabetology, v. 21, n. 1, p. 169, 2022. DOI: 10.1186/s12933-022-01604-7.
NAUCK, M. A.; MÜLLER, T. D. Incretin hormones and type 2 diabetes. Diabetologia, v. 66, n. 10, p. 1780-1795, 2023. DOI: 10.1007/s00125-023-05956-x.




Comentários