Ozempic, Mounjaro e os medicamentos que mudaram o tratamento da obesidade: o que a ciência diz sobre os efeitos colaterais
- 20 de abr.
- 15 min de leitura
Por que falar sobre esses medicamentos?
Nos últimos anos, nomes como Ozempic, Wegovy e Mounjaro saíram dos consultórios médicos e tomaram conta das redes sociais, das revistas e das conversas cotidianas. Esses medicamentos pertencem a uma classe chamada GLP-1 RAs (agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1) e representam um dos maiores avanços no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade das últimas décadas.
O que significa GLP-1 RA? GLP-1 é a sigla para Glucagon-Like Peptide-1 (Peptídeo Semelhante ao Glucagon tipo 1) — um hormônio produzido naturalmente no intestino depois que você come, que sinaliza ao cérebro e ao pâncreas que há nutrientes disponíveis. RA significa Receptor Agonist (agonista do receptor), ou seja, uma substância que imita e "ativa" esse receptor, amplificando seus efeitos. Em linguagem simples: esses medicamentos fazem seu corpo se comportar como se você tivesse acabado de comer uma refeição farta — por um longo período — reduzindo a fome e controlando o açúcar no sangue. |
A semaglutida (presente no Ozempic® para diabetes e no Wegovy® para obesidade) e a tirzepatida (Mounjaro®/Zepbound®) são os representantes mais famosos dessa família. A tirzepatida é um passo adiante: ela age em dois receptores ao mesmo tempo — GLP-1 e GIP (Glucose-dependent Insulinotropic Polypeptide, ou Polipeptídeo Insulinotrópico Dependente de Glicose) —, o que potencializa ainda mais seus efeitos sobre o peso e o açúcar no sangue.
Os benefícios são reais e bem documentados. Mas, como todo medicamento eficaz, eles vêm acompanhados de efeitos colaterais que precisam ser conhecidos, monitorados e, em alguns casos, tratados. Este artigo reúne o que há de mais atual e confiável na literatura científica sobre esses efeitos — explicado de forma que qualquer pessoa possa entender.
Como esses medicamentos agem no organismo?
Antes de falar dos efeitos colaterais, é importante entender por que eles acontecem. O diagrama abaixo mostra os principais órgãos onde o receptor GLP-1 está presente e o que acontece quando ele é ativado. Essa distribuição ampla pelo corpo explica por que um único medicamento pode ao mesmo tempo reduzir a fome, melhorar o açúcar no sangue, desacelerar a digestão e até proteger o coração — e também por que pode causar náuseas, alterar o humor ou afetar a visão.

Figura 1 — Vias de sinalização dos agonistas GLP-1/GIP nos principais tecidos-alvo do organismo. Fonte: elaborado pelo autor com base em Smits e Van Raalte (2021).
Como ler o diagrama: Cada seta colorida representa um "caminho" que o medicamento percorre após ser injetado e cair na corrente sanguínea. Quando ele encontra um receptor GLP-1 num órgão, ativa uma sequência de reações dentro da célula — mostrada no centro do diagrama — que produz o efeito clínico. Por isso, um único remédio age em tantos lugares ao mesmo tempo. |
Náuseas, vômitos e desconforto digestivo
O efeito colateral mais comum — e quase esperado — desses medicamentos é o desconforto gastrointestinal (TGI, sigla para Trato Gastrintestinal, o sistema que vai da boca ao ânus): náuseas, vômitos, diarreia, constipação, queimação e dor abdominal. Em estudos que acompanharam dezenas de milhares de pacientes, esses sintomas aparecem em praticamente todos os GLP-1 RAs.
Por que isso acontece? O receptor GLP-1 existe tanto no intestino quanto em uma região do tronco cerebral chamada área postrema — o "centro do vômito" do organismo. Quando o medicamento ativa esses receptores, o estômago demora mais para esvaziar (isso é proposital: ajuda a sentir saciedade por mais tempo), mas também pode desencadear a sensação de enjoo. É como se o corpo estivesse recebendo um sinal exagerado de "acabei de comer demais". |
A boa notícia é que esses sintomas são, na maioria das vezes, leves a moderados e temporários. Em metanálise publicada no BMJ com 76 ensaios clínicos e mais de 39 mil participantes, Yao et al. (2024) confirmaram que todos os GLP-1 RAs aumentam esses eventos, especialmente nas doses mais altas, mas que os benefícios metabólicos superam os riscos na grande maioria dos pacientes.1
O que fazer na prática?
A estratégia mais eficaz é a titulação gradual — começar com a dose mais baixa e aumentar devagar ao longo de semanas, dando tempo ao corpo para se adaptar. Refeições menores, menos gordurosas e evitar deitar após comer também ajudam. Se os sintomas forem intensos e persistentes, o médico pode reduzir a dose temporariamente ou indicar um antiemético (medicamento contra náusea) de curto prazo.
Pedras na vesícula biliar
Menos discutida nas redes sociais, mas consistentemente presente na literatura científica, é a relação entre os GLP-1 RAs e o aumento do risco de colelitíase (pedras na vesícula, também chamadas de cálculos biliares) e colecistite (inflamação da vesícula).
O que é a vesícula biliar e por que ela fica em risco? A vesícula biliar é um pequeno órgão em formato de pera localizado sob o fígado. Ela armazena a bile — um líquido produzido pelo fígado que ajuda a digerir gorduras. O GLP-1 reduz os movimentos da vesícula, fazendo a bile ficar estagnada. Bile parada por muito tempo tende a formar cristais e, depois, cálculos. Além disso, a perda de peso rápida promovida pelos medicamentos também favorece a formação de pedras — criando um efeito duplo. |
Uma metanálise publicada no JAMA Internal Medicine analisou 76 ensaios clínicos com 103.371 pacientes e concluiu que os GLP-1 RAs aumentam o risco de doenças biliares em 37% (RR: 1,37).15 Esse risco foi ainda maior nos estudos focados em perda de peso. Outra metanálise, publicada no Obesity Reviews, confirmou que tanto a farmacologia desses medicamentos quanto a velocidade da perda de peso contribuem para esse risco de forma combinada.16
⚠ Sinais de alerta que exigem avaliação médica urgente: Dor intensa no lado direito da barriga, especialmente após refeições gordurosas, que se irradia para as costas ou para o ombro direito. Febre associada a essa dor pode indicar colecistite aguda (inflamação grave) — situação que geralmente exige intervenção cirúrgica. |
Perda de massa muscular — o efeito colateral mais subestimado
Este é, provavelmente, o efeito colateral que mais preocupa os especialistas no longo prazo, especialmente em pessoas mais velhas. Quando usamos os GLP-1 RAs e perdemos peso rapidamente, não perdemos apenas gordura: perdemos também músculo. Estudos indicam que mais de 25% do peso total perdido pode vir da massa muscular — uma proporção preocupante.
Por que perder músculo é tão sério? Imagine uma pessoa de 80 anos que já tem pouca força nas pernas. Se ela perder mais 5 kg de músculo ao usar esses medicamentos, pode deixar de conseguir levantar da cadeira sozinha, aumentar muito o risco de quedas e fraturas, e ter seu metabolismo desacelerado — o que facilita recuperar o peso perdido assim que parar o medicamento. Esse estado se chama sarcopenia (do grego: sarx = carne, penia = pobreza) — a perda progressiva de massa e força muscular com o envelhecimento. |
Uma revisão publicada na Metabolism: Clinical and Experimental por pesquisadores da Harvard Medical School alertou que a perda de aproximadamente 6 kg de massa magra observada nesses tratamentos equivale, em termos de envelhecimento muscular, a mais de uma década de vida.4 Os autores também discutiram compostos em investigação que podem proteger o músculo durante a perda de peso, como o Bimagrumab.
Uma revisão publicada no renomado periódico Diabetes Care foi categórica: o treinamento resistido supervisionado (musculação, exercícios com peso) por pelo menos 10 semanas deve ser parte obrigatória do tratamento com esses medicamentos — não um opcional.5 Esse tipo de exercício pode recuperar cerca de 3 kg de massa muscular e aumentar a força em até 25%.
⚠ Recomendação prática: Se você usa ou vai usar GLP-1 RAs, converse com seu médico sobre avaliação de composição corporal (idealmente com exame DEXA, que mede ossos, gordura e músculo separadamente) e sobre incluir exercícios de força na sua rotina. A proteína na dieta também importa: especialistas recomendam de 1,2 a 1,6 gramas por quilo de peso ao dia. |
Piora da retinopatia diabética
Para pessoas com diabetes que já têm problemas na retina (a camada de células sensíveis à luz no fundo do olho), os GLP-1 RAs — especialmente a semaglutida — podem, paradoxalmente, piorar esse quadro nos primeiros meses de tratamento. Esse fenômeno é chamado de early worsening (piora precoce) da retinopatia.
Como isso é possível? Parece contraditório: um medicamento que baixa o açúcar no sangue piorando uma doença causada pelo açúcar alto. O mecanismo é parecido com o que acontece quando um diabético começa a usar insulina em altas doses: a queda rápida do açúcar provoca alterações nos vasos sanguíneos da retina que, paradoxalmente, podem causar sangramento ou edema (inchaço). É como se os vasos, acostumados a um ambiente de muito açúcar, ficassem "desorientados" com a mudança brusca. O mesmo pode ocorrer com a semaglutida, que reduz a HbA1c (hemoglobina glicada — indicador do nível médio de açúcar nos últimos 3 meses) de forma muito rápida. |
Uma revisão sistemática conduzida por pesquisadores da Harvard Medical School e publicada no Graefe's Archive for Clinical and Experimental Ophthalmology analisou 59 estudos e identificou evidências sugestivas de piora leve da retinopatia, especialmente edema macular diabético, com a semaglutida.6
⚠ Recomendação: Pessoas com diabetes que já têm algum grau de retinopatia devem fazer uma avaliação com oftalmologista (médico especialista nos olhos) antes de iniciar semaglutida, e repetir o exame com mais frequência nos primeiros 6 meses de uso. |
Pancreatite e preocupações com o pâncreas
O pâncreas é uma glândula localizada atrás do estômago que produz insulina (hormônio que controla o açúcar) e enzimas digestivas. O receptor GLP-1 existe nas células pancreáticas, o que levantou a preocupação de que esses medicamentos pudessem aumentar o risco de pancreatite (inflamação do pâncreas, potencialmente grave) ou de câncer pancreático.
Uma extensa revisão de segurança publicada no Frontiers in Endocrinology concluiu que o perfil geral de segurança da semaglutida é favorável, mas reconhece que conclusões definitivas sobre o risco de pancreatite e câncer pancreático ainda não são possíveis.7 Uma análise do banco de dados da FDA, publicada no Journal of Endocrinological Investigation, identificou relato desproporcional de pancreatite associado à tirzepatida — mas esse risco não foi maior do que o observado com outros GLP-1 RAs, sugerindo que é um efeito de toda a classe.8
🚨 Sinal de alerta — procure atendimento imediatamente se: Dor intensa e persistente na região central ou superior do abdômen (barriga), que pode irradiar para as costas, especialmente após refeições. Isso pode indicar pancreatite aguda — uma emergência médica. O medicamento deve ser suspenso e nunca reintroduzido após um episódio confirmado de pancreatite. |
Efeitos nos rins
Os rins filtram o sangue e eliminam resíduos pela urina. Em geral, os GLP-1 RAs têm efeito protetor sobre os rins — grandes estudos mostraram que esses medicamentos retardam a progressão da doença renal crônica em diabéticos. Então, por que aparecem na lista de efeitos colaterais?
O problema, na maioria das vezes, é indireto: pacientes que sofrem vômitos e diarreia intensos podem se desidratar gravemente, e a desidratação reduz o fluxo de sangue para os rins, causando uma lesão renal aguda (LRA) — uma queda temporária na função renal causada pela falta de água e sais no organismo, e não pelo medicamento agindo diretamente nos rins.
Uma revisão voltada para médicos de emergência, publicada no American Journal of Emergency Medicine, detalhou esse mecanismo e recomendou que em qualquer doença aguda com risco de desidratação — como gripes fortes, gastroenterites ou calor intenso — o GLP-1 RA deve ser pausado temporariamente.17 Essa pausa é chamada pelos especialistas de sick day rule (regra do dia doente).
Saúde mental e ideação suicida
Esta é a questão mais delicada e ainda não totalmente resolvida entre os pesquisadores. Em 2023, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) e a FDA nos Estados Unidos iniciaram uma investigação formal sobre possíveis efeitos psiquiátricos dos GLP-1 RAs — especificamente se poderiam aumentar pensamentos suicidas (chamados de ideação suicida).
Por que existe essa suspeita? O receptor GLP-1 existe em regiões do cérebro ligadas ao humor, à motivação e ao sistema de recompensa — circuitos que, quando desregulados, estão associados à depressão. Além disso, a perda de peso muito rápida pode desencadear mudanças emocionais complexas: alteração na imagem corporal e instabilidade emocional. Não se sabe ao certo se os efeitos psiquiátricos relatados são causados diretamente pelo medicamento, pela perda de peso em si, ou por ambos. |
Um estudo publicado no JAMA Network Open analisou o banco de dados global de reações adversas da OMS (Organização Mundial da Saúde) e identificou um sinal estatisticamente significativo de ideação suicida associada especificamente à semaglutida, que se manteve mesmo quando comparado a outros antidiabéticos usados como controle.9
Outro estudo, publicado na European Neuropsychopharmacology, analisou o banco de dados da FDA e identificou relatos de ideação suicida para semaglutida, tirzepatida e liraglutida, incluindo 13 casos de suicídio consumado no universo analisado.10 Os autores foram cuidadosos: dados de farmacovigilância (monitoramento de efeitos adversos após a aprovação do medicamento) mostram associação, mas não provam causa. Estudos prospectivos controlados são necessários.
🚨 Atenção especial se você ou alguém próximo: Tiver histórico de depressão grave, tentativa de suicídio ou transtorno psiquiátrico sem controle adequado — essa informação deve ser comunicada ao médico antes de iniciar o tratamento. Qualquer mudança de humor, pensamentos negativos persistentes ou ideação suicida durante o uso deve ser comunicada imediatamente. |
Risco em procedimentos cirúrgicos e endoscópicos
Este é um efeito colateral que muitas pessoas não conhecem: os GLP-1 RAs podem aumentar o risco de broncoaspiração (o estômago regurgitar alimento para os pulmões) durante anestesia geral, mesmo quando o paciente ficou em jejum como recomendado.
Por que isso acontece? Um dos efeitos desejados desses medicamentos é retardar o esvaziamento gástrico (o estômago leva mais tempo para esvaziar seu conteúdo para o intestino). Isso é bom para a saciedade — mas significa que, mesmo após horas de jejum, pode ainda haver alimento no estômago. Na anestesia geral, quando os reflexos protetores da via aérea ficam "dormentes", esse resíduo pode ser regurgitado e aspirado para os pulmões, causando pneumonia grave. |
Um estudo retrospectivo publicado no Journal of Clinical Medicine avaliou pacientes submetidos a endoscopia e encontrou que o uso de GLP-1 RA aumentou o risco de ter alimento retido no estômago em quase 9 vezes, com a tirzepatida apresentando a associação mais forte.11
⚠ Recomendação importante antes de qualquer cirurgia ou procedimento com sedação: Informe seu médico e anestesista sobre o uso de GLP-1 RA. As principais sociedades de anestesiologia recomendam suspender medicamentos de dose semanal (como o Ozempic e o Mounjaro) pelo menos 1 semana antes de cirurgias eletivas (planejadas) com anestesia geral. Essa suspensão é temporária e o medicamento pode ser retomado após a recuperação. |
Preocupações com câncer de tireoide
A tireoide é uma glândula em forma de borboleta na região do pescoço, responsável por regular o metabolismo do corpo. Em estudos com ratos e camundongos, os GLP-1 RAs causaram tumores em células específicas dessa glândula chamadas células C (responsáveis por produzir o hormônio calcitonina). Por isso, esses medicamentos têm uma contraindicação formal: não devem ser usados por pessoas com histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide ou NEM-2 (Neoplasia Endócrina Múltipla tipo 2 — uma condição hereditária rara).
Uma análise do banco de dados da FDA identificou sinal desproporcional de carcinoma medular de tireoide associado à tirzepatida, com um índice chamado ROR de 13,67.8 Porém, o número absoluto de casos foi muito baixo e não é possível concluir causalidade. Estudos de longo prazo em grandes populações humanas ainda são necessários.
O que acontece quando o medicamento é interrompido?
Este talvez seja o aspecto mais importante para quem pensa em usar — ou parar de usar — esses medicamentos: o peso tende a voltar quando o tratamento é interrompido, e de forma expressiva.
Uma revisão sistemática com metanálise publicada no Obesity Reviews em 2025, analisando oito ensaios clínicos com 2.372 participantes, encontrou que pessoas que pararam a semaglutida ou a tirzepatida recuperaram em média 9,69 kg após a descontinuação.18 Quem parou a liraglutida recuperou em média 2,20 kg. Outra revisão, publicada no Journal of Clinical Medicine em 2025, confirmou que esse reganho é rápido e independe de quanto tempo a pessoa ficou em tratamento.19
Por que o peso volta? A obesidade é uma doença crônica com base biológica. Os circuitos do hipotálamo que controlam a fome foram "recalibrados" ao longo de anos. Quando o medicamento é retirado, esses circuitos voltam ao estado original — com apetite aumentado e metabolismo lento. É exatamente como a hipertensão: quando se para o remédio para pressão, ela sobe novamente. Isso não é falha do paciente; é a biologia da doença. |
Isso significa que, idealmente, esses medicamentos devem ser encarados como uma terapia de longo prazo — assim como os remédios para pressão alta ou colesterol. A decisão de parar deve ser planejada junto ao médico, levando em conta o risco real de reganho e as consequências para a saúde metabólica.
Guia prático: quando manejar e quando parar
A tabela abaixo resume, de forma prática e baseada na literatura científica, as principais situações que podem surgir durante o tratamento e o que os especialistas recomendam.
Situação | Orientação | Parar o medicamento? |
Náuseas e vômitos leves | Titulação mais lenta, refeições menores, antiemético de curto prazo se necessário | Não |
Náuseas e vômitos intensos e persistentes | Reduzir a dose; se não melhorar, avaliar suspensão | Avaliar com médico |
Pedras na vesícula (assintomático) | Monitoramento regular por ultrassonografia | Não |
Inflamação da vesícula (colecistite aguda) | Suspender; avaliação cirúrgica urgente | Sim — definitivo |
Pancreatite aguda confirmada | Suspender imediatamente; não reintroduzir nunca | Sim — definitivo |
Perda excessiva de músculo (sarcopenia grave) | Treinamento resistido, proteína adequada; avaliar pausa | Avaliar com médico |
Piora leve de retinopatia diabética | Acompanhamento com oftalmologista mais frequente | Avaliar com médico |
Piora grave de retinopatia ou edema macular | Suspender; tratamento oftalmológico urgente | Sim — após avaliação |
Pensamentos suicidas ou piora psiquiátrica grave | Suspender; avaliação psiquiátrica urgente | Sim — definitivo enquanto não compensado |
Desidratação intensa (doença aguda) | Suspender temporariamente; retomar após melhora | Temporário |
Cirurgia ou endoscopia planejada | Suspender 1 semana antes (dose semanal) ou 24h (dose diária) | Temporário |
Histórico familiar de câncer medular de tireoide ou NEM-2 | Contraindicação formal — não iniciar o tratamento | Não iniciar |
Reação alérgica grave (anafilaxia) | Adrenalina de emergência; suspender definitivamente toda a classe | Sim — definitivo |
Fontes: Smits e Van Raalte (2021)⁷; Caruso et al. (2024)⁸; Schoretsanitis et al. (2024)⁹; Robalino Gonzaga et al. (2024)¹¹; Thomsen et al. (2025)¹²; He et al. (2022)¹⁵; Long et al. (2024)¹⁷; Berg et al. (2025)¹⁸. NEM-2: Neoplasia Endócrina Múltipla tipo 2.
Benefícios reais, riscos reais — e a importância do acompanhamento médico
A semaglutida e a tirzepatida são, sem exagero, medicamentos revolucionários. Dezenas de ensaios clínicos com dezenas de milhares de pacientes comprovam sua eficácia no controle do diabetes tipo 2, na perda de peso e na proteção cardiovascular. Para muitas pessoas, eles representam uma mudança de vida real e clinicamente relevante.
Mas o perfil de segurança desses medicamentos merece respeito. Como este artigo demonstrou com base em revisões sistemáticas, metanálises e estudos de farmacovigilância publicados nos melhores periódicos do mundo, eles podem causar desde o desconforto gastrointestinal cotidiano até situações mais sérias, como pancreatite aguda, inflamação da vesícula, perda muscular grave e — ainda sob investigação — possíveis efeitos sobre a saúde mental.
O ponto mais importante: esses efeitos são manejáveis na maioria dos casos, desde que o paciente seja acompanhado de forma regular e que a relação entre médico e paciente seja de confiança e comunicação aberta. Nunca inicie, altere a dose ou interrompa esses medicamentos sem orientação médica. E lembre-se: a descontinuação sem planejamento leva ao reganho de peso expressivo — o que também tem suas próprias consequências para a saúde.
Referências
1 YAO, H. et al. Comparative effectiveness of GLP-1 receptor agonists on glycaemic control, body weight, and lipid profile for type 2 diabetes: systematic review and network meta-analysis. BMJ, v. 384, p. e076410, jan. 2024. DOI: 10.1136/bmj-2023-076410.
2 KARAGIANNIS, T. et al. Subcutaneously administered tirzepatide vs semaglutide for adults with type 2 diabetes: a systematic review and network meta-analysis of randomised controlled trials. Diabetologia, v. 67, n. 7, p. 1206-1222, abr. 2024. DOI: 10.1007/s00125-024-06144-1.
3 ANSARI, H. U. H. et al. Efficacy and Safety of Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonists on Body Weight and Cardiometabolic Parameters in Individuals With Obesity and Without Diabetes: A Systematic Review and Meta-Analysis. Endocrine Practice, v. 30, n. 2, p. 160-171, nov. 2023. DOI: 10.1016/j.eprac.2023.11.007.
4 STEFANAKIS, K.; KOKKORAKIS, M.; MANTZOROS, C. S. The impact of weight loss on fat-free mass, muscle, bone and hematopoiesis health. Metabolism: Clinical and Experimental, v. 161, p. 156057, out. 2024. DOI: 10.1016/j.metabol.2024.156057.
5 LOCATELLI, J. C. et al. Incretin-Based Weight Loss Pharmacotherapy: Can Resistance Exercise Optimize Changes in Body Composition? Diabetes Care, v. 47, n. 10, p. 1718-1730, out. 2024. DOI: 10.2337/dci23-0100.
6 NTENTAKIS, D. P. et al. Effects of newer-generation anti-diabetics on diabetic retinopathy: a critical review. Graefe's Archive for Clinical and Experimental Ophthalmology, v. 262, n. 3, p. 717-752, set. 2023. DOI: 10.1007/s00417-023-06236-5.
7 SMITS, M. M.; VAN RAALTE, D. H. Safety of Semaglutide. Frontiers in Endocrinology, v. 12, p. 645563, jul. 2021. DOI: 10.3389/fendo.2021.645563.
8 CARUSO, I. et al. The real-world safety profile of tirzepatide: pharmacovigilance analysis of the FDA Adverse Event Reporting System (FAERS) database. Journal of Endocrinological Investigation, v. 47, n. 11, p. 2671-2678, ago. 2024. DOI: 10.1007/s40618-024-02441-z.
9 SCHORETSANITIS, G. et al. Disproportionality Analysis From World Health Organization Data on Semaglutide, Liraglutide, and Suicidality. JAMA Network Open, v. 7, n. 8, p. e2423385, ago. 2024. DOI: 10.1001/jamanetworkopen.2024.23385.
10 GUIRGUIS, A. et al. Exploring the association between suicidal thoughts, self-injury, and GLP-1 receptor agonists in weight loss treatments. European Neuropsychopharmacology, v. 82, p. 82-91, mar. 2024. DOI: 10.1016/j.euroneuro.2024.02.003.
11 ROBALINO GONZAGA, E. et al. Real-World Impact of GLP-1 Receptor Agonists on Endoscopic Patient Outcomes in an Ambulatory Setting. Journal of Clinical Medicine, v. 13, n. 18, set. 2024. DOI: 10.3390/jcm13185403.
12 THOMSEN, R. W. et al. Real-world evidence on the utilization, clinical and comparative effectiveness, and adverse effects of newer GLP-1RA-based weight-loss therapies. Diabetes, Obesity & Metabolism, v. 27, supl. 2, p. 66-88, abr. 2025. DOI: 10.1111/dom.16364.
13 XIE, Z. et al. Seven glucagon-like peptide-1 receptor agonists and polyagonists for weight loss in patients with obesity or overweight: updated systematic review and network meta-analysis. Metabolism: Clinical and Experimental, v. 161, p. 156038, set. 2024. DOI: 10.1016/j.metabol.2024.156038.
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